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quarta-feira, 20 de junho de 2012

PARA QUE A IGNORÂNCIA DOS DOUTOS SEJA COMBATIDA


Afonso Silvestre*
O episódio de manifestação de homofobia por alguns professores do IFBA – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia – na semana passada em Vitória da Conquista é um dos fatos mais lamentáveis, entre tantos que o país está vivendo. Eles mostram que precisamos ainda amadurecer muito nossas discussões e entendimentos acerca dos direitos humanos. Uma questão cultural, e até mesmo de educação. Como tem havido muitas pessoas supostamente esclarecidas proferindo e incitando a desigualdade, a violência contra perfis de característica, a inversão de valores, conclui-se que a institucionalidade faz leis mas não prepara as pessoas para cumpri-las.
Nesses tempos de lutas sociais, não de classes, mas de categorias, começaram a se destacar, ou desvelar, grupos identitários que buscam um lugar mais digno na pirâmide social, diante das possibilidades criadas por uma série de governos que, nos últimos anos vêm buscando cumprir os preceitos da Constituição Cidadã de 1988. Porém, um movimento contrário, de retrocesso, vem reclamar contra os direitos desde sempre negados a essas pessoas, usando o racismo, a homofobia e a ignorância como medidas de proteção contra a mobilidade social.
O preconceito é uma defesa natural do intelecto humano contra aquilo que ele considera diferente, contra o outro, o mal conhecido. Eu tenho o direito de discordar de você, mas eu não tenho o direito de não te aceitar. Quando o preconceito progride para atos de ódio como racismo ou homofobia, ele passa a se configurar como um defeito deste intelecto.
A homofobia designa um agravamento do preconceito, uma reação emocional à presença de homossexuais (ou presumidos homossexuais), que vai do desconforto à ansiedade, ao medo e, por fim, à raiva e à agressão. São reações excessivas, deslocadas e injustificadas, talvez por emanarem de um conflito interno.
Quando essas atitudes partem de professores de uma instituição federal, o fenômeno toma proporções ainda mais graves. Isto porque o Governo Federal tem sido o principal agente na luta contra as desigualdades, e tem buscado regular essas questões em planos, orientações, leis e programas. É um alerta para uma situação delicada que a sociedade brasileira vive neste momento de transição social e econômica. Ele demonstra que agentes sociais formadores de opinião, e que mantêm relação de poder com os beneficiários do seu trabalho, têm parco esclarecimento sobre determinadas circunstâncias, determinados fenômenos da atual conjuntura social, econômica, política, histórica e cultural.
Os emails do IFBA são um lixo em todos os aspectos: trazem erros de semântica, de sintaxe, de ortografia, de gramática e de entendimento da realidade brasileira, expondo outra ferida grave em nossa sociedade, que é a qualidade do ensino. E estamos tratando aqui de um instituto tecnológico reconhecido como referência. Depois, ao professar a ignorância quanto a questões de etnia e de perfis de característica de orientação sexual, incitam o ódio e a violência. É preciso que algo seja feito para que professores aprendam a ler, escrever, ouvir e falar para que, então, possam interpretar os discursos que ouvem, que lêem, que vêem. Como os assaltos à gramática e aos direitos humanos foram feitos por professores do IFBA, é preciso que a instituição os qualifique, ou faça um remanejamento para uma atividade mais simples. Educar é mais difícil, exige habilidades cognitivas mais refinadas.
Afonso silvestre.
Foto: blogdopaulonunes.com
Entre outros impropérios, os emails dão a entender que o “cidadão comum e branco” é o “cidadão normal”. Dizem que negro serve para engraxar sapatos. E dizem mais, mas vou parar por aqui. Como pai de aluno da instituição, tenho consciência de que o principal responsável pela educação do meu filho sou eu, e que a escola deve ser meu principal parceiro. Portanto, eu exijo que sejam tomadas todas as providências legais, e conclamo à sociedade para que seja criado um fórum permanente de debates sobre essas questões, para que a ignorância dos “doutos” seja combatida.
*Afonso Silvestre é historiador e pai de aluno do IFBA.

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