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quinta-feira, 14 de março de 2013

Oferta para o dia 14 de Março, Dia da Poesia


No dia 17 de maio 2009, o poeta Mario Benedetti deixou Montevidéu entristecida. Partiu de vez com seus 88 anos. Partiu calando uma voz original, patrimônio de todos, um canto, um mar de pessoas. Como disse Eric Nepomuceno: “Deixou desolada uma multidão de leitores, e, nos amigos, um vazio sem fim.” É verdade, deixou.
Infelizmente só fui conhecê-lo a uns 02 ou 03 anos passados. Mas, mesmo assim, parece que eu já o conhecia por anos e anos de sentimento e explosão poética.

A América Latina honra-se por ter um morador eterno como Mário Benedetti.

“Quando me enterrem/Por favor não se esqueçam/ Da minha caneta”

Para vocês, repasso esse poema de Mário Benedetti.
                                                                                  JeanClaudio


Porque Cantamos


Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino
cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.
                                   Mário Benedetti

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