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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Como nos tempos dos índios malvados


Há algo comum entre “Argo” e “A hora mais escura”, candidatos ao Oscar. Ambos veem muçulmanos apenas como caricatura ideologizada

Por José Gerado Couto*
22/02/2013

Quis o destino – ou a mão invisível do mercado cinematográfico – que dois fortes concorrentes ao Oscar deste ano fossem filmes que podem ser englobados no tema geral da “guerra ao terror”, mais precisamente da hostilidade recíproca entre norte-americanos e muçulmanos “radicais”, a guerra nada fria de nossa época.

Ambos são centrados em ações espetaculares capitaneadas pela CIA: em Argo, de Ben Affleck, a retirada de seis funcionários diplomáticos americanos do Irã conflagrado pela revolução islâmica de 1979; em A hora mais escura, de Kathryn Bigelow, o cerco a Bin Laden e seu suposto fuzilamento à queima-roupa numa cidade paquistanesa, em 2011.
Trailer de Argo 

Três décadas separam os dois eventos, mas nos dois filmes persiste um traço comum: a total falta de interesse dos realizadores em conhecer o “outro”, em tentar, ao menos por um instante, se aproximar de seu ponto de vista, buscar compreender suas motivações. O que há é um “nós” e um “eles”, como nos velhos filmes de índios, ou de alienígenas.

Tanto em Argo como em A hora mais escura, todos os muçulmanos que aparecem são fanáticos, estúpidos, traiçoeiros e cruéis – com exceção, claro, dos que se converteram em aliados dos EUA (como o bom índio Tonto, companheiro do Zorro do faroeste).

Tudo bem. O cinema americano levou décadas para começar a tentar conhecer os índios, para passar a vê-los como pessoas e não como uma horda selvagem indistinta, para reconhecer que eles tinham direitos, carências e desejos próprios. Talvez aconteça o mesmo com o olhar lançado aos muçulmanos – e aos árabes em geral. Tomara que não demore tanto.

Heróis individuais

De resto, não há como acusar duas grandes produções norte-americanas de ser extremamente… norte-americanas. Sua visão há de ser, em linhas gerais, a predominante entre seus compatriotas. E é preciso reconhecer que nenhum dos dois filmes é deslavadamente patrioteiro a ponto de esconder as culpas ianques no cartório. No breve prólogo de contextualização histórica de Argo é dito claramente que os EUA ajudaram a derrubar um presidente nacionalista iraniano democraticamente eleito para instalar em seu lugar o corrupto e tirânico (mas pró-Ocidente) xá Reza Pahlevi. A hora mais escura, por sua vez, já começa com uma sessão de tortura de um prisioneiro muçulmano no pós-11 de setembro.

No mais, apesar do aparato mobilizado nas duas ações, são nitidamente histórias de heróis individuais: o especialista em exfiltration Tony Mendez (Ben Affleck) em Argo, a agente Maya (Jessica Chastain) em A hora mais escura. Nada mais americano.

As diferenças mais importantes entre os dois concorrentes estão justamente na linguagem cinematográfica adotada, no estilo de narração, nas referências estéticas.

Argo é, evidentemente, muito mais leve e agradável, até porque trata de uma operação baseada na astúcia, não na violência, e que teve final feliz. O que o converte em algo mais que um simples thriller é justamente a imbricação do tema da política internacional com o da indústria da comunicação e do entretenimento. Se, como formulou Von Clausewitz, “a guerra é a continuação da política por outros meios”, o cinema (e por extensão a indústria cultural) é a continuação da guerra por outros meios.

Ficção da ficção

Para tirar do Irã os funcionários diplomáticos americanos, a CIA engendrou um plano ousado: simular a produção de um filme canadense de ficção científica naquele país. Esse entrecho – real – serve a Affleck para brincar com Hollywood como o lugar da fabricação de mentiras. Toda essa vertente do filme – entrelaçada por uma montagem hábil à narração da crise em Washington e no Irã – é o que ele traz de mais divertido. A dupla de picaretas hollywoodianos encarnada por Alan Arkin e John Goodman é responsável pelas falas mais memoráveis, como esta: “Se você quer vender uma mentira, ponha a imprensa para vendê-la por você”. Ao que tudo indica, uma frase recorrente em Hollywood.

Tanto na linha cômica como no suspense e no melodrama familiar, a matriz assumida deArgo é o cinema narrativo clássico norte-americano, sobretudo o dos anos 1970, com sua sintaxe um tanto mais frouxa e influenciada pela televisão (e o símbolo desse declínio é o letreiro escangalhado de Hollywood na montanha).

Já a referência que Kathryn Bigelow parece querer mimetizar é a das reportagens televisivas em tempo real. A ânsia de parecer documental chega a sacrificar a inteligibilidade e até a visibilidade do que é mostrado. Na sequência crucial da invasão do bunker do suposto Bin Laden, não se enxerga praticamente nada. Faltou apostar no ilusionismo do cinema, na capacidade que temos de acreditar que uma cena está sendo iluminada só por uma vela mesmo que haja potentes holofotes e refletores no set. Enfim, se o modelo de Argo é a velha e boa Hollywood, a de A hora mais escura é a CNN.

Ideologia escondida

Duas últimas observações críticas – e quem não quiser saber o final do filme de Ben Affleck pode parar por aqui. Há em Argo uma imagem eloquente, quase um carimbo de conservadorismo americano: a do abraço entre o herói retornado e sua amada, com a bandeira das estrelas e listras tremulando ao fundo. Clint Eastwood, ele próprio republicano e conservador, usou a mesma iconografia no final de Sobre meninos e lobos, mas com dolorosa ironia. Uma boa sacada de Argo, por outro lado, é o de exibir em destaque, no final, os bonequinhos de Star Wars e outras sagas de ficção científica do filho do protagonista. A fantasia do menino e o ofício do pai fazem parte da mesma mitologia do triunfo, da mesma lógica da conquista e da expansão. Até que ponto o filme de Affleck é uma reflexão crítica sobre esse mecanismo e até que ponto se limita a reiterá-lo, talvez seja cedo para responder.

Já em A hora mais escura, o que há de mais ideológico é a conversão de escolhas políticas e éticas em questões meramente técnicas. Por exemplo: mais de uma vez se faz referência no filme à falsa alegação de que o Iraque tinha armas de destruição em massa, mas sempre como tendo sido um inocente erro técnico, quando é quase certo que o que houve foi má fé, para justificar a invasão militar do país. Ainda mais perigosa é a passagem em que a investigação sobre o paradeiro de Bin Laden parece emperrar porque não se pode mais usar métodos de interrogatório pesado (leia-se tortura). O espectador é quase induzido a lamentar que os ventos da política tenham mudado e que Obama tenha sido obrigado a frear a barbárie de seus compatriotas.

* Crítico de cinema e tradutor.

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