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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

É impostura ideológica enxergar diferenças substantivas de projeto entre PT e PSDB

Por Valéria Nader e Gabriel Brito*

Mais de uma semana após o segundo turno, a poeira eleitoral começa a abaixar, mas os ânimos populares e o contexto político permanecem acirrados, neste que foi um dos mais tensos, disputados e divididos processos dos últimos anos. De volta à realidade, polêmicas e crises em diversas frentes são a nova tônica. Água, economia, mídia, reforma política e muitos outros assuntos seguem, inapelavelmente, na ordem do dia. Para tratar de um desses relevantes assuntos, o Correio da Cidadania entrevistou o economista Reinaldo Gonçalves, que foi implacável em sua análise das proposições econômicas dos candidatos.

“O debate refletiu exatamente a natureza dos candidatos, dos partidos, das alianças, dos programas e dos projetos: mediocridade histérica, tanto da Dilma quanto do Aécio. Fizeram pequenas referências a programas específicos, mas nenhum aprofundamento sobre questões mais fundamentais, como o modelo de desenvolvimento ou questões estruturais”, resumiu.

Dentro de tal contexto, Reinaldo ressalta que todas as discussões a respeito da política econômica do período vindouro encontram-se em franca defasagem ante o contexto mundial. “A independência do BC e as metas de inflação tiram a autonomia política, trazem o risco de inconsistências da macroeconomia e, aqui está o problema central, são uma proposta completamente atrasada e ineficaz do próprio ponto de vista técnico”.

Para o autor do livro Desenvolvimento às Avessas, analisar a dicotomia entre petistas e tucanos sob a ideia de que a vitória de Aécio “aprofundaria” o neoliberalismo brasileiro é uma “impostura ideológica”. “O projeto é exatamente o mesmo, que está levando ao apodrecimento do Brasil. O Brasil apodrece do ponto de vista econômico, social, político, institucional e ético. Por trás disso, está o modelo econômico que os governos vêm mantendo”, disparou.

A entrevista completa com Reinaldo Gonçalves pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como você viu a abordagem da economia do país nos debates eleitorais dos candidatos à presidência da República, especialmente aquele travado no segundo turno entre Dilma e Aécio?

Reinaldo Gonçalves: O debate refletiu exatamente a natureza dos candidatos, dos partidos, das alianças, dos programas e dos projetos: mediocridade histérica, tanto da Dilma quanto do Aécio. Fizeram pequenas referências a programas específicos, mas nenhum aprofundamento sobre assuntos mais fundamentais, como o modelo de desenvolvimento ou questões estruturais. Nada disso, nada de programa de governo. O debate refletiu a mediocridade entre todos os elementos políticos dos dois candidatos, que foram muito pobres.

Correio da Cidadania: O que diria sobre a dimensão que tomou o tema da independência do Banco Central? Qual o sentido da polêmica que se instaurou em torno ao tema e o que significaria, na prática, um Banco Central (BC) independente?

Reinaldo Gonçalves: Na prática, significa o BC ficar focado única e exclusivamente no combate à inflação. Essa é a ideia de autonomia do Banco Central. Claro que em países onde o BC é autônomo, como nos EUA, podem existir outros regimes monetários, deixando-se de focar somente no combate ou aumento da inflação. O foco pode ser dado na área monetária, na questão do emprego, do balanço de pagamentos etc.

Portanto, essa discussão no Brasil é atrasada. Desde 2008, o percentual de países que adotam o regime de metas de inflação, associado aos fundamentos do nosso Banco Central, tem caído: desceu de 22% para 17% dos países. Com a crise, os países procuram gerar graus de autonomia política. Assim, não dá pra amarrar a política monetária somente no combate à inflação, enquanto há problemas como juros altos, balanço de pagamentos e falta de crescimento.

Por isso que tal debate é atrasado no país, assim como é atrasado nosso debate sobre a política, inclusive a econômica. No Brasil, não faz sentido, principalmente por conta da forte estabilização macroeconômica, com baixos crescimento e investimentos, deficiências crônicas seríssimas e dificuldade com o balanço de pagamentos, se dar o luxo de pegar uma política tão importante como a monetária e ancorá-la somente no combate à inflação. Um país como o Brasil, por ser mais frágil, vulnerável e instável, precisa de mais autonomia política. Não faz sentido ancorar nenhuma política a um objetivo particular, porque condiciona toda a política macroeconômica.

A independência do BC e as metas de inflação tiram a autonomia política, trazem o risco de inconsistências da macroeconomia e, aqui está o problema central, são uma proposta completamente atrasada e ineficaz do próprio ponto de vista técnico.

Correio da Cidadania: Como definiria, nesse sentido, a condução da economia, bem como a gestão do Banco Central, sob o governo Dilma até o presente momento (inclusive à luz das anteriores gestões de Lula e também de FHC)?

Reinaldo Gonçalves: Medíocre. A macroeconomia brasileira nos anos de Dilma foi de grande mediocridade, tanto levando em conta os padrões históricos brasileiros como os atuais padrões internacionais. Por exemplo, Dilma encerra o mandato com crescimento médio do PIB de 1,6%. O mesmo número vale para o aumento real da renda anual. A média histórica brasileira é 4,5%. A economia mundial durante os últimos quatros anos está crescendo à ordem de 3,6%, mais que o dobro do Brasil.

Mais de 70% dos países têm um crescimento macroeconômico superior ao do Brasil. Para se ter ideia, em 30 mandatos presidenciais, a Dilma é o terceiro pior neste quesito, à frente somente de Collor e Venceslau Brás. Uma tragédia total.

Há várias explicações. Uma delas é o déficit de governança, ou seja, a incompetência do governo Dilma na gestão econômica. Falo de um resultado conclusivo, que não está aberto a controvérsias. Basta olhar as finanças públicas, o crescimento, as taxas de investimentos... A única exceção, que confirma a regra, é a questão do emprego, que não se explica por méritos políticos do atual governo, mas por razões de mudanças demográficas no país e efeitos colaterais, e inesperados, da política social.

Correio da Cidadania: O que sinalizam as medidas tomadas já nesta semana, como a alta da Taxa de Juros (a Selic), ao lado da sinalização de que o novo ministro da Fazenda será buscado no mercado financeiro? Como deve seguir o governo Dilma?

Reinaldo Gonçalves: Isso mostra que o governo Dilma não tem um projeto de Brasil. Ela fez o mesmo de Lula: seguir o Modelo Liberal-Periférico, iniciado por FHC e que já afundou. Junta o pior do liberalismo, deixa suas coisas boas de fora, e traz tudo que há de ruim nas periferias, inclusive o sistema político patrimonialista, corrupto, com sérios problemas de governança e resultados cada vez mais medíocres.

É o modelo que vai continuar, em uma trajetória de maus resultados e instabilidade na economia, o que certamente repercutirá na questão social, política e até institucional. Vale lembrar que há pouco tempo ninguém imaginava aqueles protestos populares, até generalizantes, contra os governos do Brasil inteiro.

Correio da Cidadania: A campanha petista acusou mídia, grandes empresários e mercado financeiro de fazerem terrorismo contra a candidatura Dilma - de fato, notou-se um movimento de alta na Bolsa de Valores quando os resultados das pesquisas eleitorais eram mais desfavoráveis à candidata e vice-versa. O que explica este fato, visto que as gestões petistas, Dilma entre elas, caminharam com altos lucros bancários e não inverteram a lógica dominante no modelo econômico implantado por FHC?

Reinaldo Gonçalves: Pura farsa. Desde a era Lula, o PT gira à esquerda na época das eleições. Quando vira governo, vai para a direita, como camaleão ambulante. A regra é essa: no momento da eleição, faz um giro para a esquerda; depois, um giro para a direita. Mas é uma farsa recorrente empreendida pelos dirigentes, que, nesse sentido, se apresentam no duelo eleitoral iludindo a maior parte do povo. E até a própria esquerda brasileira, por ingenuidade, inépcia ou pusilanimidade, acaba, na campanha, aderindo a essas candidaturas ecléticas do PT.

A dominação bancária aumentou com os governos Lula e Dilma. A taxa de lucros continua de 40% a 50% maior do que nas outras grandes empresas do país. Os ativos dos bancos continuam crescendo... É uma dominação muito presente. “Tudo bem” o discurso do governo na campanha eleitoral - é uma questão de farsa, de malandragem e má fé dos dirigentes de campanha. O curioso é ver certos setores acreditando nisso. É lamentável, e continua cada vez mais forte.

Correio da Cidadania: Portanto, é quase impossível comungar da ideia do ‘mal menor’ defendida pelo campo de esquerda mais progressista e diversos movimentos sociais, que apoiaram o voto crítico em Dilma sob o argumento de que um governo do PSDB aprofundaria ainda mais o neoliberalismo?

Reinaldo Gonçalves: Essa é uma bobagem muito grande. Quem aprofundou o Modelo Liberal-Periférico no Brasil foram os governos Lula e Dilma. Quando o governo faz todas as concessões, chama os chineses para participarem do pré-sal, rodovias, infraestrutura, portos, aeroportos, vemos o aprofundando de tal modelo. É farsa, má fé e uma impostura ideológica acreditar que há uma disputa de projetos entre um e outro, ou uma disputa ideológica propriamente.

O projeto de governo em andamento é o mesmo que vem desde a era FHC. As diferenças estão apenas na margem. Um pouco mais de política social aqui, acolá, com favorecimento de grupos econômicos de alguns setores dominantes, mas os fundamentos continuam iguais. Os setores que pautam os governos são os mesmos, as empreiteiras, o agronegócio, a turma da mineração...

Não mudou absolutamente nada. Lula e Dilma vêm implementando o Modelo Liberal-Periférico sob a égide dos mesmos setores. Não tem nenhuma mudança estrutural no país. As notícias da semana passada já demonstram isso: nenhuma mudança estrutural, apenas o aprofundamento deste modelo.

Portanto, é uma impostura ideológica enxergar diferenças substantivas de projetos entre PT e PSDB. O projeto é exatamente o mesmo, que está levando ao apodrecimento do Brasil. O Brasil apodrece do ponto de vista econômico, social, político, institucional e ético. Por trás disso, está o modelo econômico que os governos vêm mantendo.

A mensagem é essa: o Brasil apodrece com o Modelo Liberal-Periférico, produzido pelo governo de FHC e aprofundado por Lula e Dilma. A trajetória é medíocre, instável e de altos riscos de crise social, política e institucional. Os responsáveis estão aí, quem faz sua escolha traça o seu caminho.


Leia também:

‘Prisioneiro da base parlamentar, governo tende a caminhar para mais do mesmo’ – entrevista com o deputado federal Chico Alencar

‘Há muito pouco que se esperar do próximo governo’ – entrevista com a historiadora Virginia Fontes

‘Votos de protesto foram o que mais de perto representaram junho de 2013’ – entrevista com Rafael Padial, da Frente pelo Voto Nulo

‘Questão energética não existiu no debate eleitoral’ – entrevista com o Chico Whitaker, do Fórum Social Mundial de Energia

‘Resultados eleitorais mostram guinada impressionante para a direita’ – entrevista com a socióloga Maria Orlanda Pinassi

‘Candidaturas à presidência não têm nada a ver com as manifestações de 2013’ – entrevista com Chico de Oliveira

Debate Eleitoral ocultou contradições da Economia e da Sociedade – entrevista com o economista Luiz Filgueiras

*Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania, 04 de novembro de 2014.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Diferenças que matam: por que o racismo não cede nos Estados Unidos

Título original: Diferencias que matan. Por qué el racismo no cede en EE.UU.




Más allá de los episodios de violencia policial que las originaron, las protestas de estas semanas en Ferguson, New York y California, entre otras ciudades norteamericanas, sacan a la luz una división racial persistente que no deja de separar a blancos y negros, hasta el punto de naturalizarse. Por qué un presidente negro no pudo, hasta ahora, cambiar esa realidad

Por Silvia Pisani

Washington.- Bajo la lluvia invernal, decenas de carteles se agitan frente a la explanada de la Casa Blanca. Es lo habitual en esa suerte de "avenida de la libre opinión" en que ha devenido el paseo frente a la residencia presidencial, donde, bajo la atenta mirada de policías y francotiradores, se sabe que todo mensaje -el que sea-, tarde o temprano, llegará a destino. Es parte de la rutina en esos metros supervigilados y devenidos, por hábito, en podio internacional de la libre expresión. Nunca el clamor llama allí la atención; al contrario, el murmullo de la protesta suele ser la música de todos los días. Pero si esta vez la cosa suena disonante y extraña es por la paradoja que encierra. Una de esas curvas de la historia que dan vuelta lo andado y lo ponen en duda.

Si hace seis años allí los carteles celebraban el "Yes, we can" ("Sí, podemos") de un presidente que abría la esperanza al cambio y progreso más profundo en este país, el "We can't breathe" ("No podemos respirar") de esos carteles bajo la lluvia parecía marcar el límite justo y preciso de aquel sueño inicial. El que se abrió con la llegada del primer presidente negro a la Casa Blanca, para devolverlo, en estos días, convertido en la amarga intuición de que ni siquiera ese histórico paso puede revertir la carga del racismo que aún pesa en esta sociedad. Que no alcanza un presidente negro, como Obama. Ni un fiscal negro, como Eric Holder; ni un alcalde de Nueva York con un hijo negro, como Bill de Blasio, para equiparar por completo las cosas.

"Los Estados Unidos han cambiado mucho en los últimos sesenta años de historia en lo que concierne a la lucha contra la discriminación", dice a la nacion Roland Roebuck, uno de los más activos promotores de la comunidad afroamericana en esta ciudad. "Pero una cosa es desterrar el racismo de Estado, contra el que se avanza con legislación, y otra muy distinta es el racismo social. Ése es más difícil y ese persiste", asegura.

El "No puedo respirar" de los carteles frente a la Casa Blanca repite la leyenda de otros tantos enarbolados a lo largo del país en la nueva oleada de protestas contra la discriminación. Evocan, a su vez, en potente eslogan, la última frase que pronunció Eric Garner, el afroamericano que murió asfixiado por la toma de ahorcamiento que le practicó el policía que lo detuvo por una infracción menor: vender cigarrillos en la vía pública.

Ocurrió en Staten Island, el más olvidado de los cinco distritos de la ciudad de Nueva York, y la muerte -con el espanto de su agonía previa y la vana súplica ("No puedo respirar, agente, por favor, no puedo respirar")- fue captada en video por un testigo circunstancial y se volvió viral. Es difícil encontrar a alguien por aquí que no la haya visto, que no se haya indignado hasta la médula y, sobre todo, que haya sido capaz de imaginar la misma escena si el que estaba en el piso, agonizando a manos de un policía, era un blanco y no un negro.

"Todos sabemos que difícilmente ese ahorcamiento y esa muerte hubieran ocurrido de haber sido Garner de raza blanca", observó Eugene Robertson, ex subeditor de The Washington Post y hoy uno de sus columnistas estrella. "Su único crimen fue haber sido negro", ironizó.

La muerte de Garner ocurrió en julio pasado, en pleno verano. Pero las protestas de estos días fueron no por su muerte, sino porque un jurado decidió que no había razón para acusar a Daniel Pantaleo, el policía que le practicó la llave de asfixia. "No se ha violado ninguna ley", fue el veredicto, pese a que las maniobras de ese tipo están prohibidas hace años. Similar fue el desenlace en Ferguson, Missouri, donde otro jurado decidió lo mismo con el policía Darren Wilson, que mató a balazos a Michael Brown, un afroamericano de 18 años que estaba desarmado. Lo mismo ocurrió antes en Florida, donde el jurado exculpó al vigilante privado que mató a balazos a Trayvon Martin, un adolescente negro de 16 años porque "se sintió amenazado".

De todas esas muertes -y de la coincidente exculpación de los matadores que las siguieron- fue la de Garner, en Staten Island, la que levantó las protestas más extendidas a lo largo del país. También, la que concitó la mayor adhesión de blancos, según revelaron, en forma coincidente, sondeos de las cadenas Bloomberg y ABC. De modo más espontáneo, una cadena de mensajes por Twitter apuntó a lo mismo. Con la convicción de que, en esta sociedad, los blancos pagan menos por delinquir que los negros, el hashtag #Crimingwhilewhite (Delinquir siendo blanco) hizo furor con una marea de "confesiones" en las que tuiteros blancos "confesaban" crímenes colectivos en los que la policía solamente castigaba al negro. Imposible saber si todos los casos eran ciertos. Posiblemente, no. Pero no hay duda de que el fenómeno, llevado a la portada de los principales medios del país, refleja una corriente demasiado arraigada como para ponerla en duda.

Es lo mismo que dice el presidente Barack Obama cuando reconoce que él mismo "podría haber corrido la misma suerte" que Trayvon Martin. O cuando el alcalde Bill de Blasio cuenta que, junto con su mujer, negra, enseñaron muy bien a su hijo "cómo comportarse ante la policía para no terminar muerto" si lo detienen. Un "adiestramiento" que incluye no protestar, no reclamar, no moverse, no intentar tocar su teléfono ni hacer gesto alguno que pudiera llevar a generar la mínima duda de que lo que hay enfrente es "un negro peligroso".

La confesión de De Blasio fue criticada por la policía. Pero el alcalde no hizo más que poner en palabras lo que muchos saben en esta sociedad. Que si uno es negro, mejor cuidarse. "Cuando salgo a trotar por la noche, con una capucha y ropa de gimnasia, me cuido muy bien de tener el menor incidente con la policía. Por las dudas", confesó a la nacion uno de los directivos de un reconocido centro de estudios de esta ciudad que, al igual que Obama, es hijo de madre blanca y padre negro.

Hace pocos meses, el país celebraba y se felicitaba por el medio siglo transcurrido desde la gran marcha por los derechos civiles que, con Martin Luther King a la cabeza, concluyó en esta ciudad. Fue el día de su más celebrado discurso. Aquel que llamaba a "subir desde el valle desolado y oscuro de la segregación". El que hablaba de un sueño, del día en que "los hijos de los antiguos esclavos y de los antiguos dueños de esclavos puedan sentarse juntos a la mesa de la fraternidad". Era el año 1963. Pasaría otro más para que se firmara el Acta de los Derechos Civiles, hace ahora exactamente medio siglo. Rubricada por el presidente Lyndon Johnson y por el propio pastor, declaraba ilegal la discriminación basada en la raza, el color, la religión, el sexo o la nacionalidad.

SIEMPRE UN PASO ATRÁS

Las cosas han mejorado claramente desde entonces. Pero son muchos todavía los sufrimientos y la desigualdad que padece la población negra en este país. En menor grado, también la sufren los hispanos. "Lo que se vive es una enorme desigualdad. Hay una marginación económica y social", asegura Roebuck. Las estadísticas le dan la razón y señalan la persistencia de una discriminación de la que no siempre se habla.

En estos días, especialmente, se habla de desigualdad en materia de seguridad. Se sacuden las planillas de entidades privadas y oficiales según las cuales los negros cumplen penas de prisión un 20 por ciento más largas que los blancos por el mismo crimen. No sólo eso: son ellos los que ocupan con más persistencia las cárceles, según se desprende de una reciente encuesta del FBI según la cual del total de detenidos en el país más del 30 por ciento es de origen afroamericano, lo que representa el doble de su proporción demográfica, que es del 13,1 por ciento.

En la misma línea de razonamiento, un hombre de raza negra tiene seis veces más posibilidades de ser encarcelado que uno blanco, y 2,5 veces más que uno latino, según los datos recopilados por The Sentencing Project, una entidad civil experta en cuestiones carcelarias.

Son tasas incluso peores que en los años de segregación racial. Todo ello se traslada directamente a la composición de las cárceles: en 2012 un 36,5% de los reclusos eran negros -casi tres veces más que su peso en el conjunto de la población del país ese año-, un 33,1% eran blancos-casi la mitad de su proporción del 63% en el censo- y un 22% eran latinos -el 16,9% de la población-. Dicho de otro modo, un 3,1% de los negros están presos; un 1,3% de los latinos, y un 0,5% de los blancos.

La desigualdad se extiende a otros ámbitos. Negros y latinos tienen menos ingresos anuales, menos patrimonio y menos acceso a la educación, a la salud pública y al empleo que los blancos. Son, en definitiva, mucho más pobres.

Esas diferencias no sólo persisten hoy, cinco años después de que un afroamericano asumiera por primera vez la presidencia de los Estados Unidos, sino que crecieron de a poco a tal punto que, en 2013, sólo el 25% de los negros decía que la situación de la gente de su misma raza era mejor que en 2009 (ese año lo dijo el 39%), de acuerdo con un estudio del Centro de Investigaciones Pew.

En esto también hay matices. Porque otro de los fenómenos de los últimos años es una aguda "estratificación" dentro de esa población. "Se puede decir que la situación mejoró en conjunto, pero con diferencias. Ahora hay una clase alta, otra media y una baja entre los negros. Antes, las tres cabían en una", advierte Robert Stepo, académico de estudios afroamericanos en Chicago.

Una estratificación a la que se asocian historias de enorme esfuerzo y éxito igualmente grande. El caso de Obama ejemplifica, mejor que ninguno, el tránsito de los negros de la esclavitud al poder. Su testimonio fue precedido por el de figuras como la ex secretaria de Estado Condoleezza Rice o el ex jefe de las fuerzas armadas Colin Powell. Pero, para la gran mayoría silenciosa, las estadísticas muestran cuán lejos se está aún del discurso de Martin Luther King.

Ésa es la realidad de la que se habla menos que de los escándalos. Como describió Mary Curtis, una conocida comentarista de temas raciales, "nunca hablamos de eso hasta que algo nos lo recuerda". Los casos de brutalidad que ahora sacuden y movilizan al país en protestas son una nueva muestra de ello. Hace un año, ocurrió algo parecido al celebrarse el medio siglo del discurso de King. Hubo, entonces, un profundo -y no del todo alentador- debate sobre lo que aún resta recorrer. Algo parecido ocurrió, meses atrás, con el fallo de la Corte Suprema de Justicia, que dejó la puerta abierta al final de la llamada "acción positiva", que reserva cupos de ingreso a estudios y empleo para personas de raza negra.

"Si no fuera por esa norma, muchos no podrían acceder a estudios superiores", sostuvo la jueza hispana Sonia Sotomayor, una de las voces disidentes. En cambio, su colega negro, Clarence Thomas, votó sin problemas por el final de un sistema del que él mismo se benefició para acceder a los estudios que, luego, lo convirtieron en el único magistrado negro del tribunal.

"La marginación económica impide la igualdad", dice Roebuck, y afirma que en algunos aspectos incluso se agravó. Los 19.000 dólares de ingresos anuales que hace 50 años había de diferencia entre las familias blancas y negras hoy representan a valores constantes más de 27.000, de acuerdo con el Centro Pew. En 1970, la tasa de pobreza entre los negros era del 33,6%. La última medición pública, de hace dos años, es más alta: ahora es del 35%.

Muchos pensaron que la llegada de Obama terminaría con todo eso. "No hay una América blanca y una negra, somos un solo país", dijo quien, desde que llegó a la presidencia, evitó poner el foco específicamente en la discriminación racial. Al contrario, llamó a los negros a no caer en el "victimismo" e hizo hincapié en la necesidad de crear puestos de trabajo y oportunidades que terminen con la desigualdad.

Nadie sabe muy bien en qué terminará la efervescencia social de estos días. Pero, si bien con una misma raíz discriminatoria, los frentes son tantos -policial, económico, educativo, carcelario, laboral, médico- que difícilmente una sola medida otorgue la respuesta por la que se clama desde hace décadas. Aquel "yo tengo un sueño" que aún sigue retumbando.
Fonte: La Nación

Metade dos remédios é inútil

Título Original: La mitad de las medicinas son inútiles

Dos médicos franceses denuncian que el 50% de los remedios son inútiles y el 5% potencialmente peligrosos. La conclusión la sostienen en el libro ‘Guía de los 4.000 medicamentos útiles, inútiles o peligrosos’.

La mitad de las medicinas son inútiles Corbis Uno de cada dos medicamentos que se comercializan son inútiles a la hora de mejorar la salud, según afirmó un nuevo ensayo de científicos galos, publicado en el semanario francés ‘Nouvel Observateur’.

A esta radical conclusión llegaron dos prestigiosos profesores y médicos franceses en su libro ‘Guía de los 4.000 medicamentos útiles, inútiles o peligrosos’, en el que denuncian no solo la inutilidad, sino la peligrosidad de algunos de los medicamentos que ingieren los franceses y que le cuestan al Estado unos 10.000 millones de euros en reembolsos de la seguridad social.

El 50% de los medicamentos son inútiles, el 20% mal tolerados y el 5% de los remedios, potencialmente peligrosos, según sostienen el parlamentario francés Bernard Debré, diputado del grupo Unión por un Movimiento Popular (UMP), y Philippe Even, director del prestigioso Instituto Necker y rector de la Facultad de Medicina de París.

Esta publicación se ha convertido en un verdadero desafío para la industria farmacéutica y para los médicos. En Francia, nueve de cada diez consultas médicas finalizan con una receta para comprar un medicamento en la farmacia.

Anualmente, en el país se consumen 47 cajas de píldoras por persona. Además, los autores de la investigación acusan a la industria farmacéutica de inercia y de dejarse llevar por sus intereses económicos a la hora de producir medicamentos.

Debré y Even aseguran que los laboratorios solo invierten el 5% en investigación, el 15% en desarrollo y el 10% en la fabricación, que generalmente se lleva a cabo en países como India o Brasil. Francia tiene el mayor porcentaje del mundo de farmacias por metro cuadrado, 18.000 visitadores médicos y un ‘lobby’ farmacéutico muy poderoso en la Asamblea Nacional.

Fonte: Actualidad RT, 25 SEPTEMBER, 2012.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Um Marx impossível: o marxismo sem teoria laboral do valor

Título original: “Un Marx imposible: el marxismo sin teoría laboral del valor”: Diego Guerrero

“El marxismo no está hoy de moda. Pero entre los que guardan alguna relación con él – marxistas, exmarxistas, pseudomarxistas, premarxistas, postmarxistas, marxianos, paramarxistas y marxólogos- sigue habiendo un marxismo “à la mode” que es, antes que cualquier otra cosa, una lectura imposible del marxismo. Aunque no se debe confundir Marx con marxismo, es inevitable ligar el pensamiento económico marxista con el pensamiento económico de Marx, y es lo que me propongo hacer en este trabajo, con la intención de descubrir la novedad o no de las tendencias actuales en el pensamiento económico marxista.

En realidad, las dos tendencias principales son fáciles de distinguir: 1) por un lado hay una amplia gama de lecturas imposibles de Marx, que defienden ciertos aspectos del pensamiento económico (o social) de éste pero renunciando a su teoría del valor-trabajo; 2) por otro lado está la lectura que se va a defender aquí: la de quienes ven en la teoría laboral del valor no sólo el elemento central de toda la “economía” de Marx (e incluso de su filosofía), sino la única teoría coherente del valor aparecida hasta la fecha y la auténtica revolución de la ciencia económica, hasta el punto de que no se la puede rechazar sin volver a estadios superados de la misma”.

Fonte: Marxismo Crítico, 25/10/2011

Grupos de Estudos convidam para duplo lançamento de revistas sobre a ditadura militar









O GEILC (Grupo de Estados de Ideologia e Lutas de Classes), o GEPS (Grupo de Estudos Política e Sociedade) e o GEPEHCE (Grupo de Pesquisa Estudos Histórico-Críticos em Educação) promovem o duplo lançamento das revistas Lutas Sociais (num. 32) e RBBA - Revista Binacional Brasil-Argentina (num. 5), marcados para o dia 16/12 (terça-feira), às 19:00 horas, no Auditório do CEDOC - Centro de Documentação Albertina Lima de Vasconcelos – (na UESB, próximo à Biofabrica, ao lado do Laboratório de Biologia). O duplo lançamento destas distintas revistas se faz propositadamente, pois que se agregam às ações de difusão crítica sobre um tema central (ditadura civil-militar na América Latina) tema central das duas publicações, quando completa-se meio século de ocorrência do golpe civil-militar no Brasil.

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

CIA paga U$ 81 milhões para que psicólogos aprimorem tortura

Título original: La CIA pagó 81 millones de dólares a dos psicólogos para que desarrollaran torturas

Publicado: 11 dic 2014
© REUTERS

Las técnicas de tortura a las que fueron sometidos los detenidos de la CIA las desarrollaron dos psicólogos inexpertos que recibieron 81 millones de dólares por su trabajo, señala el polémico informe del Comité de Inteligencia del Senado de EE.UU.

Los dos contratistas no sabían nada sobre técnicas de interrogatorio, Al Qaeda o lucha contra el terrorismo y carecían de "cualquier tipo de experiencia cultural o lingüística relevante", insisten los autores del informe, citado por 'New York Post'.

La ausencia de conocimientos no impidió a los dos psicólogos tener un papel central en los interrogatorios de la CIA, ya que no solo idearon las técnicas de tortura, sino que también colaboraron en su aplicación. Entre otros tormentos, sometieron al infame 'waterboarding' o 'submarino' a los detenidos más significativos. También llevaron a cabo evaluaciones oficiales sobre el estado psicológico de las víctimas para determinar si las técnicas mejoradas debían continuar.

El informe menciona solo los pseudónimos de los psicólogos, Grayson Swigert y Hammond Dunbar, y añade que lograron recibir 81 millones de dólares de la suma total del contrato, que era de 181 millones de dólares.

La revista 'Vanity Fair', sin embargo, afirma que los cerebros del programa de torturas son James Elmer Mitchell y Bruce Jessen, instructores de la Fuerza Aérea en un programa llamado SERE, ideado para ayudar a los militares a burlar interrogatorios.

Fonte: RTActualidad

"Brasil tem maior número absoluto de homicídios"

AE

O Brasil tem o maior número absoluto de homicídio do mundo e, de cada cem pessoas que são assassinadas por ano no planeta, cerca de 13 são registrados no País. Os dados fazem parte do primeiro levantamento realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a violência e que revela a dimensão do problema em todos os continentes.

Segundo a OMS, o total de homicídios no mundo chega a 475 mil. Em números absolutos, o Brasil é o líder no ranking, com uma estimativa de 64,3 mil homicídios em 2012.

O País é seguido por 52 mil homicídios na Índia, 26 mil no México, 20 mil na Colômbia, 18 mil na Rússia e na África do Sul e 17 mil na Venezuela e nos Estados Unidos.

Os números da OMS, porém, são bem superiores ao que o governo brasileiro forneceu à entidade, com respeito a 2012. Segundo os valores oficiais, foram 47,1 mil homicídios naquele ano, com uma taxa de 24,3 incidentes para cada cem mil pessoas.

Fonte:  Istoé

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Uma nota sobre a revolução negra

Valerio Arcary

É pelo rastro que se conhece o tamanho da onça.
Sabedoria popular brasileira

        Classes sociais não devem ser percebidas como uma categoria sociológica abstrata. Nada pode fazer sentido quando se despreza a geografia e a história, portanto, o espaço e o tempo. O principal traço peculiar da evolução do capitalismo na América Portuguesa, depois no Brasil, é que ele se implantou da forma mais atroz, desumana e bárbara possível, recorrendo à escravidão como relação de trabalho dominante, em escala sem paralelo no mundo nos últimos mil e quinhentos anos.

        O Brasil permanece muito diferente dos seus vizinhos sul-americanos de colonização espanhola, por muitas determinações, todavia, esta é a principal. Houve escravidão em muitas outras colônias das Américas. No entanto, nenhuma nação contemporânea conheceu em sua história escravidão negra em tão larga proporção, e por tanto tempo como o Brasil. [1]

        Sem compreender o significado histórico da escravidão é impossível decifrar a especificidade da formação da burguesia no Brasil. Mas, tampouco, é possível entender a formação da classe trabalhadora brasileira. O capitalismo no Brasil, entendido como capitalismo comercial, não foi tardio. Tardia foi a urbanização e, sobretudo, a industrialização.

         As raízes ideológicas do racismo que envenena a maioria das classes médias, que são o núcleo duro da base social que sustenta a dominação de classe, repousam, inteiramente, na herança deixada pela escravidão. O mito da democracia racial brasileira é um discurso perigoso, porque ainda é muito poderoso. A importância central do tema da escravidão, uma relação social pré-capitalista, para a compreensão das tarefas da revolução brasileira não se reduz a um debate historiográfico, porque tem consequências políticas programáticas.

        Três correntes debateram no interior do marxismo, pelo menos desde meados do século XX, o sentido da colonização ibérica. O estalinismo defendeu a tese de que ela teria sido feudal. Gunder Franck respondeu defendendo que teria sido diretamente capitalista. Em 1948, Nahuel Moreno defendeu em Cuatro Tesis sobre la colonización  española y portuguesa en América, uma terceira posição. O processo teria sido mais complexo, porque resultado de um amálgama entre interesses capitalistas, relações sociais escravistas e formas feudais, portanto, uma formação social histórica original. Em uma interpretação desta discussão historiográfica, anos depois afirmou:

“El marxismo latinoamericano se educó bajo la influencia de un seudo marxismo que había abrevado en las fuentes de los historia­dores liberales. Estos pregonaban una supuesta colonización feudal por parte de España y Portugal que había sido el origen de nuestro retraso con respecto a Estados Unidos de Norteamérica. Ese falso esquema de la colonización ha sido suplantado en algunos medios marxistas por otro tan peligroso como el anterior: la colonización latinoamericana fue directamente capitalista. Gunder Frank es uno de los más importantes representantes de esta nueva corriente de interpretación marxista. Como bien cita George Novack, éste afirma categóricamente que “ el capitalismo comienza a penetrar, a for­mar, a caracterizar por completo a Latinoamérica (…) ya en el siglo XVI.” Producción y descubrimientos por objetivos capitalistas; relaciones esclavas o semiesclavas; formas y terminologías feudales (al igual que el capitalismo mediterráneo) son los tres pilares en que se asentó la colonización de América.  [2] (grifo nosso)

        A colonização do Brasil foi motivada por interesses capitalistas. Muito antes da independência, já existia uma classe dominante luso-brasileira com características burguesas, embora as relações sociais fossem pré-capitalistas. A acumulação capitalista precedeu, portanto, a abolição da escravidão. Existiam assalariados desde os tempos da América portuguesa, mas esta relação de trabalho era marginal. Por aqui a burguesia começou a se formar no século XVI. Mas o proletariado surge como classe, ainda assim muito embrionariamente, somente no final do século XIX, alguns séculos mais tarde. Como alertou, pioneiramente nos anos quarenta, Caio Prado Júnior:

“A situação do Brasil se apresenta de forma distinta, pois na base e origem da nossa estrutura e organização agrária, não encontramos, tal como na Europa, uma economia camponesa, e sim a mesma grande exploração rural que se perpetuou desde o início da colonização brasileira até nossos dias; e se adaptou ao sistema capitalista de produção através de um processo ainda em pleno desenvolvimento e não inteiramente completado (sobretudo naquilo que mais interessa ao trabalhador), de substituição do trabalho escravo pelo trabalho juridicamente livre.” [3]

        Se avaliarmos a escala nacional, só podemos considerar uma presença da classe operária em alguns poucos centros urbanos depois dos anos trinta do século XX e, de forma mais expressiva, somente depois dos anos cinquenta, quando ainda quase metade da população vivia no mundo rural.

        Esta assimetria do processo histórico-social de formação das duas classes mais importantes da atual sociedade brasileira potencializou no marxismo duas posições opostas, que podemos classificar, simplificando, como os produtivistas e os circulacionistas. A primeira e mais influente foi a daqueles que não admitiam a possibilidade da existência de uma colonização capitalista desde a invasão portuguesa. Insistiram durante décadas na defesa esdrúxula de que teria existido feudalismo no Brasil. Alberto Passos Guimarães e sua obra Quatro séculos de latifúndio conseguiu grande repercussão.[4]

      Defenderam que uma sociedade deve ser caracterizada, historicamente, pelas relações de produção dominantes. Afirmaram que o que caracteriza o capitalismo é o trabalho assalariado. Se o trabalho assalariado não é dominante, a sociedade não é capitalista.

      A outra posição, embora oposta pelo vértice, era igualmente unilateral. Os circulacionistas afirmavam que a colonização tinha sido, sumariamente, capitalista, desprezando o fato monumental de que o escravismo criou raízes profundas em quase quatro séculos de existência. A Organização Revolucionária Marxista-Política Operária, POLOP, por exemplo, assumiu esta interpretação para concluir a necessidade de um programa diretamente socialista ou anticapitalista, diminuindo a importância das tarefas democráticas da revolução brasileira. [5]

     Jacob Gorender tentou solucionar o debate com uma elaboração inspirada, ainda que sob forte influência estruturalista, sugerindo que o Brasil conheceu um modo de produção próprio, o escravista colonial.[6]

      O Brasil é ainda um país muito atrasado. É atrasado econômica, social, política e culturalmente. É dramaticamente atrasado em termos educacionais quando comparado com nações em estágio semelhante de desenvolvimento econômico. Atrasado, portanto, em toda a linha. Mas é, ao mesmo tempo, o maior parque industrial do hemisfério sul do planeta, e uma das maiores economias capitalistas do mundo contemporâneo, com doze cidades com um milhão ou mais de habitantes, e 85% da população economicamente ativa em centros urbanos.

         Só utilizando os recursos marxistas da lei do desenvolvimento desigual e combinado é possível equacionar a principal das peculiaridades brasileiras: o capitalismo usou em escala insólita a mão de obra escrava. O que nos remete ao debate estratégico sobre o programa. Nas palavras de Moreno:

“Esta discusión teórica no es una polémica académica sin rela­ciones con la política. Las tesis de la revolución permanente no son las tesis de la mera revolución socialista, sino de la combina­ción de las dos revoluciones, democrático burguesa y socialista. La necesidad de esa combinación surge inexorablemente de las estructuras económico sociales de nuestros países atrasados, que combi­nan distintos segmentos, formas, relaciones de producción y de clase. Si la colonización fue desde un principio capitalista no cabe más que la revolución socialista en Latinoamérica y no una combinación y supeditación de la revolución democrático burguesa a la revolución socialista. [7] (Grifo nosso)

        Não é possível lutar, seriamente, pela mudança da sociedade em que vivemos, sem compreender como ela é. Em perspectiva marxista esta análise deve identificar quais são os sujeitos sociais interessados na transformação. Uma das peculiaridades que distingue o Brasil é que este proletariado tardio é um dos mais poderosos do mundo. A força da classe trabalhadora brasileira repousou e se explica, em grande medida, pelo seu gigantismo, pela concentração e pela sua juventude. Essa juventude, paradoxalmente, foi até hoje, também, a sua fraqueza. Porque a atual classe trabalhadora brasileira se formou, majoritariamente, pelo deslocamento para as cidades, em processo muito intenso e acelerado de migrações internas, da população descendente, em sua maioria, dos afro-brasileiros cujos ancestrais foram escravos.

        A revolução brasileira tem pela frente o desafio de ser uma revolução social anticapitalista, ou seja, a expropriação dos monopólios, porque a classe trabalhadora deverá ser o seu principal sujeito social. Mas só poderá triunfar se tomar como sua as bandeiras democráticas das tarefas inacabadas deixadas para trás pela impotência burguesa. Essa revolução democrática tem muitas e variadas tarefas. Tem tarefas civilizatórias, como a erradicação da corrupção, a demarcação das terras indígenas, o fim das desigualdades regionais. Tem tarefas de libertação nacional na luta contra a ordem imperialista. Tem tarefas agrárias contra o latifúndio. Só poderá triunfar, contudo, se for também uma revolução negra. 

Notas:

[1] O primeiro censo nacional foi realizado entre 1870/72. O questionário era de difícil transcrição e apuração. Embora tenha sido feito em condições, especialmente, precárias, sua importância como fonte não merece ser diminuída. Sobre uma população próxima a dez milhões ou, mais exatamente 9.930.478, a população escrava era ainda um pouco maior que um milhão e meio, ou, mais precisamente de 1.510.806, sendo 805.170 homens e 705.636 mulheres. Estudos demográficos históricos são somente aproximações de grandeza, mas estima-se que nunca deve ter sido menor que um terço do total até 1850, e pode ter sido próxima à metade, ou pelo menos 40% no século XVIII, no auge da exploração do ouro das Minas Gerais. PUBLICAÇÃO CRÍTICA DO RECENSEAMENTO GERAL DO IMPÉRIO DO BRASIL DE 1872 do Núcleo de Pesquisa em História Econômica e Demográfica - NPHED da UFMG. Consulta em dezembro 2014. Disponível em: www.nphed.cedeplar.ufmg.br/.../Relatorio_preliminar_1872_site_nphed.

[2] Ainda mais claro: No inauguraron un sistema de producción capitalista porque no había en América un ejército de trabajadores libres en el mercado. Es así como los colonizadores para poder explotar capitalisticamente a América se ven obligados a recurrir a relaciones de producción no capitalista: la esclavitud o una semiesclavitud de los indígenas. MORENO, Nahuel. Cuatro Tesis sobre la colonización  española y portuguesa en América. https://www.marxists.org/espanol/moreno/obras/01_nm.htm Consulta em dezembro de 2014.

[3] Ou ainda mais claro em O sentido da colonização: “Coloquemo-nos naquela Europa anterior ao séc. XVI, isolada dos trópicos, só indireta e longinquamente acessíveis, e imaginemo-la, como de fato estava, privada quase inteiramente de produtos que se hoje, pela sua banalidade, parecem secundários, eram então prezados como requintes de luxo. Tome-se ocaso do açúcar; que embora se culti­vasse em pequena escala na Sicília, era artigo de grande raridade e muita procura; até nos enxovais de rainhas ele chegou a figurar como dote precioso e altamente prezado(...) Isto nos dá a medida do que representariam os trópicos como atrativo para a fria Europa, situada tão longe deles(...) É isto que estimulará a ocupação dos trópicos americanos. Mas trazendo este agudo interesse, o colono europeu não traria com ele a dispo­sição de pôr-lhe a serviço, neste meio tão difícil e estranho, a energia do seu trabalho físico. Viria como dirigente da produção de gêneros de grande valor comercial, como empresário de um negócio rendoso; mas só a contragosto como trabalhador. Outros trabalhariam para ele.”  PRADO JÚNIOR, Caio. In Formação do Brasil Contemporâneo, Brasiliense/Publifolha, 2000, p.29.

[4] Sobre a interpretação da hipótese de feudalismo, Alberto Passos Guimarães é representativo: “A simples eliminação em nossa História da essência feudal do sistema latifundiário brasileiro e a consequente suposição de que iniciamos nossa vida econômica sob o signo da formação social capitalista significa, nada mais nada menos, considerar uma excrescência, tachar de supérflua qualquer mudança ou reforma profunda de nossa estrutura agrária.” GUIMARÃES, Alberto Passos. Quatro séculos de latifúndio. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1968, p.33.

[5] REIS FILHO, D.A. & SÁ, J. F. de. [Org.] Imagens da revolução: documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1985.

[6] Mário Maestri resgatou, merecidamente, este trabalho do esquecimento: “Em O escravismo colonial, Gorender superava a tradicional apresentação cronológica de cunho historicista do passado do Brasil para definir em forma categorial-sistemática sua estrutura escravista colonial. Ou seja, empreendia estudo “estrutural” daquela realidade, para penetrar “as aparências fenomenais e revelar” sua “estrutura essencial”. Isto é, seus elementos e conexões internos e o movimento de suas contradições.” MAESTRI, Mário O Escravismo Colonial: A revolução Copernicana de Jacob Gorender. http://www.espacoacademico.com.br/035/35maestri.htm#_ftn23. Consulta em dezembro 2014

[7] IDEM.  https://www.marxists.org/espanol/moreno/obras/01_nm.htm. Consulta em dezembro de 2014.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

DOI de São Paulo ensinou técnicas de tortura a chilenos, uruguaios e argentinos em 1974, revela livro

Vitor Sion
São Paulo - 08/12/2014

Em "A Casa da Vovó", jornalista Marcelo Godoy expõe funcionamento do DOI-CODI a partir de dezenas de entrevistas com militares e documentos oficiais

Como parte da Operação Condor, aliança político-militar entre os governos ditatoriais da América do Sul nos anos 1970 e 1980, o regime militar brasileiro ofereceu treinamento de técnicas de tortura em presos políticos a agentes argentinos, chilenos e uruguaios. A informação é parte da pesquisa de dez anos do jornalista Marcelo Godoy, que lança nesta semana o livro A Casa da Vovó - Uma Biografia do DOI-Codi (1969-1991), o centro de sequestro, tortura e morte da ditadura militar (Alameda, 612 págs., R$ 69).

No caso chileno, as práticas viriam a ser usadas pela Dina (Departamento Nacional de Inteligência), segundo entrevista feita pelo autor da obra com o “Agente Chico”, sargento do DOI entre 1970 e 1991, que não aceitou divulgar o seu nome verdadeiro.

"Eles vieram fazer o que aqui?", perguntou o jornalista na entrevista com o agente. "Aprender como é que se interrogava", responde o agente em trecho reproduzido na página 492 do livro. "Só isso?", insiste Godoy. "Não participaram de operação. Eles chegaram num dia, com aquelas fardas marrom. E no outro dia vieram paisano e foram levados pro interrogatório. E olha como pendura, [choque], e a técnica de bater pra falar. Eram três chilenos. Vieram aprender a 'fazer' a Dina."

Agentes do Estado brasileiro à espera de cerimônia para receberem a "Medalha do Pacificador", em imagem da capa do livro. Arquivo Marcelo Godoy

A confirmação da vinda de uruguaios e argentinos foi feita pelo sargento Marival Chaves, o “Doutor Raul”, sargento do DOI de 1973 a 1977. Além de consultar diversos arquivos públicos e de jornais da época, Godoy entrevistou 25 agentes do DOI-Codi, que impuseram diferentes condições para falar: há entrevistados que permitiram a divulgação do nome, outros que autorizaram a publicação após a própria morte, uma parte liberou a publicação dos codinomes e, finalmente, alguns que falaram com a condição de usarem nomes falsos. 

Trechos das gravações das entrevistas foram publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo no domingo (7/12).


Entre as técnicas exibidas aos chilenos, que passaram dois dias no DOI (Destacamento de Operações de Informações) em 1974 estão o pau-de-arara, as máquinas de choques e a pica de boi, uma espécie de chicote. Antes da vinda de chilenos a São Paulo, um dos chefes do DOI, o capitão do Exército Ênio Pimentel da Silveira, conhecido no departamento como Doutor Ney, já havia viajado a Santiago para orientar colegas locais e “caçar brasileiros” no país, de acordo com o livro.

A obra de Godoy será lançada na próxima sexta-feira (13/12), às 14 horas, em sessão especial da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva.

A colaboração da ditadura brasileira com militares chilenos era anterior ao golpe de Estado realizado em Santiago, em 1973, conforme revelou reportagem de Opera Mundi de fevereiro deste ano. Sete anos antes da chegada de Augusto Pinochet ao poder, em 1966, o chanceler Juracy Magalhães foi ao Chile e, em reunião com seu homólogo Gabriel Valdés, disse que o hemisfério deveria “agir em benefício do Chile” se Salvador Allende fosse eleito. Como resposta, Valdés disse que as Forças Armadas chilenas já organizavam um plano para tirar os esquerdistas da Presidência.

Fonte: Operamundi

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ditador Médici guardou em casa provas de tortura

07/12/2014

Comissão da Verdade do Rio encontra prontuários médicos de presos no arquivo do ex-presidente

 

JULIANA DAL PIVA

Rio - Durante décadas a cúpula do governo militar negou a prática de tortura contra presos políticos na ditadura. Não importavam as denúncias das famílias, as marcas ou sequelas das vítimas. Quase 30 anos após o fim do regime, surgem agora as primeiras provas documentais de que no auge da repressão política — 1970 — o próprio general e então presidente da República Emílio Garrastazu Médici sabia em detalhes sobre a violência dos quartéis e suas consequências físicas e psicológicas.

Médici e o caderno onde guardava os relatos das sequelas das torturas de presas políticas no Rio. Foto:  Divulgação

Médici guardou até a morte, em meio a 32 caixas de manuscritos, um caderno de capa de couro preta com o nome do ex-presidente timbrado em letras douradas na frente. Dentro, a revelação: três prontuários médicos de presas políticas atendidas no Hospital Central do Exército (HCE). São elas: Dalva Bonet,Francisca Abigail Paranhos, além dos documentos de Vera Sílvia Magalhães — conhecida por sua participação no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.

O arquivo pessoal de Médici, doado pela família há 10 anos, integra o acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e foi disponibilizado para pesquisa da Comissão da Verdade do Rio, que localizou os prontuários. “Quanto mais temos acesso aos documentos, confirmamos que a cadeia de comando das torturas e desaparecimentos começava no Palácio do Planalto”, afirma Wadih Damous, presidente da CEV-Rio. Cópias dos documentos serão entregues às famílias em audiência pública na próxima terça-feira.

O prontuário de Vera Sílvia detalha cada medicamento utilizado por ela durante os dois períodos de internação registrados. Presa em 6 de março de 1970, ela chegou pela primeira vez ao HCE transferida do Hospital Souza Aguiar no dia seguinte devido a um “traumatismo craniano encefálico por projétil de arma de fogo”. Tratada na unidade, ela foi liberada dias depois para interrogatório no DOI-Codi.

Em 18 de maio foi internada novamente, e a descrição do quadro dá a medida do sofrimento de Vera. “Paciente acentuadamente desnutrida, subfebril. O exame neurológico acusa sensível diminuição da força muscular nos membros inferiores...há acentuada hipertrofia muscular nos membros inferiores”, registra o prontuário. O diagnóstico, porém, foi de que ela estava com uma paralisia nas pernas devido a razões psicológicas.

O médico legista Levi Inima, que auxilia a pesquisa da CEV-Rio, disse que a avaliação é “falsa”. “As alterações em termos de hipotrofia muscular demonstram a tortura em pau de arara. Ela estava bastante desnutrida, o que mostra os maus-tratos”, explicou. Vera deixou o Brasil em junho de 1970, trocada pelo embaixador alemão. Ela retornou após a anistia e morreu devido a um câncer em 2007.

Choque elétrico provocou crises convulsivas


Ao saber que seu prontuário médico fazia parte do arquivo pessoal do presidente Médici, a tradutora Maria Dalva Bonet, 68 anos, olha para alto e respira fundo. “Vou precisar de um tempo para poder falar sobre isso. É inacreditável”, desabafa Dalva.

Militante do Partido Comunista Revolucionário Brasileiro (PCBR), ela diz que foi presa no fim de janeiro de 1970 junto com a amiga inseparável, Abigail. “Foram 72 horas de pancadaria. Eu estava com a pele toda descascada do choque e me jogaram no chão de cimento. Foi quando eu comecei a ter hemorragia. Os presos pressionaram e eles me levaram para o HCE”, conta Dalva.

Ela diz que ficou cinco meses sem andar devido à tortura no pau de arara. Além disso, os choques desenvolveram um quadro de epilepsia. Por isso, como o próprio prontuário encontrado registra, foram realizados exames neurológicos. “Eles queriam dizer que as convulsões que eu passei a ter eram preexistentes. Mas eu nunca tive nada”, diz ela. Dalva disse que sofreu com crises convulsivas durante 10 anos.

Segundo o diagnóstico feito no HCE, a paralisia de suas pernas também seria emocional — como a de Vera.“Não apresenta vontade de locomover-se; procura queixar-se de tudo e de todos; é impertinente e astuciosa. Costuma ser acometida por pesadelos”, descreve o documento.

Maria Dalva Bonet ficou cinco meses sem conseguir andar devido à tortura no pau de arara. Ela também desenvolveu epilepsia por 10 anos
Foto:  Severino Silva / Agência O Dia

O médico legista Levi Inima também chamou a atenção para a quantidade de tranquilizantes, ansiolíticos e sedativos como Mandrix e Kiatrium ministrados. “ É uma associação de vários medicamentos. Isso tudo faz parte de um cenário médico exatamente para suprimir a questão da tortura”, explica Inima.


'Não deseja recuperar-se'

A advogada Francisca Abigail Paranhos também teve a sua passagem pelo Hospital Central do Exército guardada por Médici. No relatório que segue com o prontuário ela é descrita como “indiciada em inquérito policial-militar pelos crimes praticados como membro do PCBR, alegou paralisação dos membros inferiores”.

Além disso, o diagnóstico diz que Abigail, como era conhecida, não ajudava na melhora de seu quadro de saúde. “Os exames revelaram que Abigail é portadora de depressão neurótica, que não deseja recuperar-se não colaborando para o sucesso do tratamento que lhe é ministrado”, finaliza o relatório.

Dalva diz que elas deixaram a prisão cerca de um ano e meio depois. Abigail morreu de câncer em 1994.
Fonte: O Dia