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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Natal em três concepções


Em mensagem atual, o Sub-comandante Marcos tira seu pasamontañas


Não deixem de ver este belíssimo vídeo (1.59 minutos) do Subcomandante Marcos tirando seu pasamontañas.  Para além de minhas discrepâncias com certas concepções teóricas e doutrinarias do zapatismo, e também com sua estratégia geral de luta, é um movimento que merece meu mais absoluto respeito. E não devemos esquecer que, em  1º de janeiro de 1994, em pleno apogeu do neoliberalismo, os zapatistas puxaram  o grito que pôs em marcha a contraofensiva popular que mudaria o mapa sociopolítico da América Latina e que culminaria, em novembro de 2005, nada menos que com a derrota da ALCA em Mar del Plata. (Texto de Atílio Borón).

Escutaram?



"Escutaram?
É o som do seu mundo desmoronando.
É o do nosso ressurgindo.
O dia que foi o dia, era noite.
E noite será o dia que se tornará o dia.

Democracia!
Liberdade!
Justiça!"

Das montanhas do Sudeste Mexicano
Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do EZLN
Subcomandante Insurgente Marcos
México, Dezembro de 2012.

Mais informações e vídeos acerca: PassaPalavra

Mapa da violência na Bahia


domingo, 23 de dezembro de 2012

Um terço na Bahia depende do Bolsa Família

Baiana de acarajé Hilda Mendes recebe o Bolsa Família
 pelo filho Felipe Mendes. 
Mila Cordeiro | Ag. A TARDE

Luan Santos
22/12/2012 às 21:00

A Bahia fecha 2012 como o primeiro Estado do País, proporcionalmente à população, em número de pessoas beneficiadas pelo Bolsa Família, programa do governo federal de combate à pobreza. Ao todo, 1,8 milhão de famílias  receberam o benefício. Atrás da Bahia estão São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Elas foram incluídas no programa, entre os 2,8 milhões inscritos, por terem renda mensal de até R$ 70, isto é, estão na faixa de extrema pobreza, de acordo com o Ministério de Desenvolvimento Social Combate à Fome (MDS).
A média de integrantes por família, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (Sedes), é de três pessoas. Isso significa que pouco mais de um terço da população do Estado (cerca de 5 milhões) é diretamente beneficiada pelo programa. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Bahia conta com 14 milhões de habitantes.
O aumento médio de inscrições é de 100 mil famílias por ano. Neste ano, até novembro, foi registrado um crescimento de 300 mil. "O maior acesso a informação sobre o programa facilitou o cadastro, contribuindo para o aumento. Outro fator é o enquadramento de mais pessoas às exigências do MDS", explica a coordenadora regional do Bolsa Família, Luciana Santos.
Oito milhões de pessoas estão inscritas no cadastro único do governo federal, o que equivale a 58% da população do Estado, segundo a coordenadora que também informa que a inscrição não assegura o recebimento do benefício. Dados do MDS atestam que, em novembro deste ano, o valor total transferido às famílias atendidas alcançou R$ 244 milhões.
A quantia, de acordo com a Sedes, responde por 2,04% do Produto Interno Bruto (PIB) da Bahia. "Cerca de 122 municípios do Estado são dependentes do programa. Com o benefício, que varia de R$ 32 a R$ 306, os inscritos podem ter acesso a bens que anteriormente não eram possíveis", afirmou Luciana Santos.
Comércio - De acordo com o economista Armando Avena, o Bolsa Família ajuda a injetar anualmente cerca de 30 bilhões de reais anuais na economia o que mobiliza diversos setores econômicos. "As estatísticas apontam que, nos últimos  três anos, o comércio vem crescendo 10% ao mês. O Bolsa Família é um grande estímulo para isso", disse.
Avena lembra que esse crescimento mostra, por outro lado, uma faceta negativa: o seu caráter assistencialista e sem políticas que contribuam para os participantes se tornarem  autossuficientes.
Para o economista, o governo federal ainda não conseguiu dimensioná-lo como um plano de caráter emergencial e temporário, conforme a proposta inicial.
"O aumento do número de pessoas cadastradas é a prova de que o programa não está funcionando. Se é emergencial, deveria exibir, gradualmente, uma redução do número de famílias inscritas".
Fonte: A Tarde

Taxar os Ricos (um conto de fadas animado)


“Taxar os ricos: um conto de fadas animado” é narrado por Ed Asner, com animação de Mike Konopacki. Escrito e dirigido por Fred Glass para a Federação de Professores da Califórnia. Um vídeo de 8 minutos sobre como chegamos a este momento de serviços públicos mal financiados e ampliando a desigualdade econômica. As coisas vão para baixo numa terra feliz e próspera após os ricos decidirem que não querem pagar mais impostos. Dizem às pessoas que não há alternativa, mas as pessoas não têm assim tanta certeza. Esta terra tem uma semelhança surpreendente com a nossa.
Legendado em português. Para mais informações, www.cft.org.
Fonte: Youtube

sábado, 22 de dezembro de 2012

O 21/12 dos verdadeiros maias

Neste dia 21/12/2012, enquanto o mundo brincava de apocalipse, os verdadeiros descendentes dos maias, vivos e reais, nos mandaram das montanhas de Chiapas uma importante mensagem, que surpreendeu o México hoje de manhã. Em diferentes municípios da região Sudeste, milhares de indígenas integrantes do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) iniciaram o dia em grandes marchas por diferentes estradas e cidades. A manifestação, organizada até a véspera em sigilo, foi pacífica e surpreendentemente silenciosa. Em todas as marchas, o silêncio foi absoluto. Nenhuma palavra de ordem, nenhum cântico, nenhum grito de protesto. Ao final do dia finalmente foi divulgado um comunicado oficial do líder máximo do EZLN, Subcomandante Marcus, dizendo apenas: “Escutaram? É o som do mundo de vocês desmoronando. E do nosso ressurgindo”. Como sabemos, os maias nunca falaram em “fim do mundo” (tampouco jamais conceberam essa ideia). Ao contrário, em um gigantesco silêncio, nos disseram hoje que um mundo novo, uma nova era, está começando. E que os ideais zapatistas estão de volta.
Fonte: Facebook

Empreendedorismo...

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Lei que cassa licença de empresa envolvida com escravidão é aprovada em São Paulo


Leonardo Sakamoto
18/12/2012 - 23:41

A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) aprovou, nesta terça (18), o projeto de lei 1034/2011 que cassa o cadastro de contribuintes do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) flagrados com o uso de trabalho análogo ao de escravo. Na prática, a lei  prevê que empresas que se beneficiem da exploração direta ou indireta deste tipo de mão obra serão impedidas de exercer o mesmo ramo de atividade econômica, ou abrir nova firma no setor, durante um período de 10 anos no Estado. Em outras palavras, ela pode atingir não apenas quem se utilizou de escravos, mas também clientes e parceiros de negócios que ganhem com o crime.
O projeto de lei 1034/2011, de autoria do deputado Carlos Bezerra Jr (PSDB), caso sancionado pelo governador Geraldo Alckmin, implementará a mais rigorosa legislação contra o trabalho escravo contemporâneo do país na esfera econômica. Ela faz com que a cadeia produtiva em que está inserida a empresa que se utilizou de escravos possa ser responsabilizada, o que pode fazer com que o setor empresarial no Estado de São Paulo acompanhe com mais cuidado com quem ele faz negócios.
A aprovação de um projeto como esse contribui não apenas para combater uma das piores formas de exploração do ser humano, mas também para melhorar a qualidade dos produtos brasileiros vendidos dentro e fora do país e, consequentemente, o nosso comércio. Considerando que governos estrangeiros utilizam justificativas sociais para erguer barreiras comerciais não-tarifárias (na maioria das vezes, protecionismo barato travestido de preocupação social), faz-se necessário garantir que não pese nenhuma mancha – como trabalho escravo – sobre as mercadorias que exportamos. Limpar a cadeia produtiva é uma forma rápida de ganhar mercados e melhorar a vida de trabalhadores.
Há três formas principais de punição a quem usa trabalho escravo no Brasil: a) as multas do Ministério do Trabalho e Emprego que, apesar do baixo valor, são porta de entrada para a “lista suja” do trabalho escravo, cadastro interministerial utilizado por bancos e empresas, públicas e privadas, e por alguns estados, para restrição de crédito e boicote comercial; b) ações civis, condenações e ações propostas pelo Ministério Público do Trabalho e decididos ou confirmados pela Justiça do Trabalho – alguns deles tendo chegado a R$ 5 milhões; c) ações e julgamentos criminais, principalmente na dobradinha Ministério Público Federal/Justiça Federal. O artigo 149 do Código Penal, que trata do tema, prevê de dois a oito anos de cadeia para esses casos. Infelizmente, apesar da situação ter melhorado, ainda há poucas condenações (algumas dezenas de casos frente aos milhares de fazendas com libertações), dependendo do comprometimento de alguns juízes para com o tema.
O projeto de Bezerra, apresentado em outubro do ano passado, foi aprovado por unanimidade, com o apoio tanto da situação quanto da oposição, mostrando que é possível costurar o consenso sobre temas de direitos humanos. Membros da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo comentaram da importância de fomentar legislação semelhante em outros estados.
Há projetos tramitando no Congresso Nacional, em Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais para endurecer o tratamento dado aos infratores – da mesma forma que há iniciativas para facilitar a vida deles. O projeto mais conhecido é a proposta de emenda constitucional 57A/1999 (ex-438/2001), conhecida como a “PEC do Trabalho Escravo”, que prevê o confisco de propriedades em que esse crime for encontrado. Aprovada em dois turnos na Câmara neste ano, ela retorna ao Senado para nova votação.
Uma lei estadual contra o trabalho escravo que ficou conhecida internacionalmente foi aprovada no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, em 2010, obrigando empresas que têm negócios no estado a publicar em seus sites as políticas que vêm (ou não vêm) adotando para combater esse crime e o tráfico de seres humanos em suas cadeias produtivas. A lei foi ratificada pelo então governador Arnold Schwarzenegger.  O objetivo foi o de aumentar a transparência, possibilitar consumidores a fazer escolhas mais bem informadas e incentivar empreendimentos a garantir práticas humanas através de sua cadeia produtiva.
Segue os principais trechos de reportagem de Guilherme Zocchio, da Repórter Brasil, que acompanhou a votação:

Com a lei, estabelecimentos envolvidos com a exploração de trabalhadores em condições análogas às de escravo terão o nome, bem como o endereço, o número no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) e o nome completo dos sócios divulgados no Diário Oficial do Estado de São Paulo por meio de ato do Poder Executivo.
De autoria do deputado estadual Carlos Bezerra Jr. (PSDB), o projeto foi aprovado por unanimidade, com apoio de todas as bancadas, e agora deve seguir para o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que ainda pode vetar a lei. O parlamentar propositor estima, no entanto, que a proposta deve ser sancionada em curto prazo, visto que foi feita inclusive uma consulta prévia junto à Secretaria da Fazenda paulista.
Segundo Bezerra, a idéia do projeto de lei é a de intensificar a repressão econômica com vistas a coibir a exploração  desse tipo de mão de obra. “O conceito da proposta surge da compreensão de que quem se utiliza de trabalho escravo não tem outro objetivo que não o do lucro a qualquer custo. Então, para enfrentar esse crime, é preciso gerar prejuízo a quem o pratica. Esse é conceito do projeto”, reforça o deputado.
Em entrevista à Repórter Brasil, o autor do PL 1034, explica alguns detalhes do projeto e salienta a importância de uma legislação estadual específica para tratar das formas de escravidão contemporâneas. Além de deputado estadual, ele é médico, vice-presidente da comissão de direitos humanos e líder de seu partido no Parlamento estadual.
Para ler a entrevista clique na fonte desta matéria:  Blog do Sakamoto

Intelectuais: uma critica marxista aos pós-marxistas


James Petras∗

O presente artigo aborda os principais itens que o autor considera ser a ideologia dos intelectuais pós-marxistas e crítica do ponto de vista marxista, indicando a contemporaneidade desta última.

Introdução
“O pós-marxismo” se tomou uma postura intelectual em moda com o triunfo do neoliberalismo e o refluxo da classe trabalhadora. O espaço deixado pela esquerda reformista tem sido ocupado em parte pelos políticos e ideólogos capitalistas, tecnocratas e as igrejas tradicionais e fundamentalistas (o Vaticano e as pentecostais). No passado este espaço foi ocupado pelos políticos socialistas, nacionalistas e populistas,  e pelos ativistas da igreja ligados à “teologia da libertação”. A centro-esquerda era muito influente no interior dos regimes políticos (na cúpula) ou das classes populares menos politizadas (na base). O espaço vago da esquerda radical se refere aos intelectuais políticos e aos setores politizados dos sindicatos, dos movimentos sociais urbanos e rurais. É entre essas classes que o conflito entre marxismo e “pós-marxismo” é mais intenso hoje.
Criados e, em muitos casos, subsidiados pelas principais instituições financeiras e agências governamentais promotoras do neoliberalismo, emergiu um grande número de organizações “sociais” cuja ideologia, vinculações e práticas estão em conflito e competição direta com  a teoria e a prática marxistas. Essas organizações, que na maioria dos casos se descrevem como “não- governamentais” ou como “centros independentes de pesquisa”, têm estado ativas na propagação de práticas e ideologias políticas que são compatíveis e complementares à agenda neoliberal dos seus financiadores.
Este ensaio procede à descrição e crítica dos componentes das ideologias delas e, portanto, se dedica a descrever as atividades e não-atividades das mesmas, contrastando-as com as abordagens e os movimentos de base classista. A isto seguir-se-á uma discussão sobre as origens do “pósmarxismo” e sua evolução e futuro em relação ao declínio e possível retorno do marxismo.

∗ Professor do Departamento de Sociologia da Binghamton University, NY, EUA. O artigo: PETRAS, James (1996) Intellectuals: a Marxist critique of Pos-Marxist, mimeo. Tradução: Jair Pinheiro (sociólogo e doutoro em Ciências Sociais pela PUC/SP) e Lúcio  Flávio de Almeida (professor do Depto. de Política da PUC/SP), ambos membros do NEILS.


Para ler o artigo por inteiro, clicar Revista Lutas Sociais - NEILS

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

ESTADO SEM PATRIA


Mumía Abú-Jamal
30/11/2012
Solo días después que aviones Israelíes F-16, fabricados en los Estados Unidos, bombardearan viviendas y edificios en Gaza, bombas verbales fueron lanzadas contra Cisjordania --la otra mitad de Palestina-- por atreverse a ir a las Naciones Unidas para tratar de ganar un nuevo paso hacia su reconocimiento como estado.
Los representantes políticos palestinos de Cisjordania, incluido Mahmoud Abbás, que era el líder de la Organización Para la Liberación de Palestina, PLO, (sigla de su nombre en inglés, Palestine Liberation Organization), ganaron la designación de “estado no-miembro” de las Naciones Unidas, lo más cerca que han llegado a ser reconocidos como estado desde que Israel ocupó las tierras de Palestina en 1967.
Las Naciones Unidas votó 138 en favor, 9 en contra, y unos 40 estados se abstuvieron de votar.
Las clases políticas y de los medios de noticias de los Estados Unidos e Israel inmediatamente atacaron el voto, diciendo que era un impedimento al así llamado, "proceso de paz".
En verdad, el mencionado proceso de paz estaba ya casi muerto, moribundo después de décadas de reuniones que solo fortificaban a Israel, dejando las tierras palestinas divididas, amuralladas y bajo una ola de represión que difícilmente deja respirar al pueblo palestino.
El voto de las Naciones Unidas demostró que la mayoría de las naciones del mundo no podían votar contra los esfuerzos del pueblo palestino. Repito otra vez, solo nueve países, los Estados Unidos, Israel, Canadá e islas como Micronesia, votaron contra la resolución.
A pesar de los esfuerzos de los Estados Unidos e Israel de minimizar la importancia de la resolución, éste fue un triunfo político para los palestinos --aún cuando día con día su vida no podría ser más desastrosa.
Pero ésos son los riesgos de la Ocupación, y del lebensraum (alemán por "espacio vital" – como en tierra de hambre) del estado colonizador Zionista.
Hace más de 60 años, poco después de la fundación de Israel, el importante periódico israelí, Ha’aretz, publicó un editorial dando una idea de la razón por la que los Estados Unidos (y otros poderes Occidentales) apoyaban a Israel.

Decía el editorial:
Por eso, mantener fuerte a Israel ayuda a los poderes Occidentales a mantener el equilibrio y la estabilidad en el Medio Oriente.
Israel será un perro guardián ... si por alguna razón los poderes Occidentales a veces preferirían cerrar los ojos y hacerse los que no ven, Israel con absoluta confianza podrá castigar a uno o varios de los estados vecinos cuya falta de respeto a los intereses de Occidente pase más allá de los límites de lo permisible.*
Esas palabras fueron publicadas en 1951. Estamos en un nuevo siglo – y seguimos con ese mismo viejo plan.
Esa es la razón por la que los Estados Unidos estuvo, casi solo, contra Palestina.
*Fuente: Diario de Noticias Ha’aretz, 30 de setiembre, 1951.
Traducción libre del inglés enviado por Fatirah Aziz, Litestar01@aol.com, hecha en REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

El chavismo arrasa en elecciones venezolanas

Fidel, Chávez e Raul, depois da operação
 cirúrgica (dezembro de 2012)


Un avance irreversible


por Atilio A. Boron

El PSUV obtuvo una victoria arrasadora en las elecciones venezolanas. La derecha esperaba que, ante la enfermedad del presidente Hugo Chávez, cundieran el desaliento y la resignación que harían morder el polvo de la derrota a los bolivarianos. Ocurrió exactamente lo contrario: el chavismo avanzó en los grandes bastiones de la reacción, que sólo pudo retener tres de los siete estados que antes controlaba. Triunfó en Zulia, emporio petrolero y el estado con mayor población y en Carabobo, núcleo industrial del país. Aparte se alzó con la victoria en Táchira, estado fronterizo con Colombia y ruta preferencial de paramilitares y narcos para sembrar el terror en Venezuela; y en la insular Nueva Esparta. Hay un par de casos que merecen un párrafo aparte: en Zulia el candidato de la derecha, Pablo Pérez, no pudo ser re-electo perdiendo casi 85.000 votos en el camino y bajando del 53 por ciento, obtenido en las elecciones del 2008, al 48 por ciento. Mientras, el candidato chavista subía del 45 al 52 por ciento, cosechando una clarísima victoria en un estado que había sido tradicionalmente hostil a los bolivarianos. Y en Miranda el ex candidato presidencial Henrique Capriles ni siquiera mantuvo su caudal electoral: había obtenido el 53 por ciento en el 2008 y logró el 52 por ciento días pasados, reduciendo el margen de su victoria y fracasando en su apuesta - y la de toda la derecha y el imperio- de transformar su protagonismo en la reciente pugna presidencial en un trampolín que lo instalase como el gran contendor del chavismo para las elecciones presidenciales que eventualmente pudieran tener lugar en el caso de que Chávez no asumiera la presidencia el próximo 10 de Enero.
¿Cuál es la principal lección que puede extraerse de lo ocurrido el domingo pasado? A nuestro juicio, que las transformaciones sociales, económicas, políticas y culturales que tuvieron lugar a lo largo de catorce años de hegemonía chavista han tenido un calado tan hondo que aún en ausencia del líder histórico y fundador del movimiento sus voceros  y sucesores están en condiciones de derrotar ampliamente a sus adversarios. Más allá de las controversias que, ante los ojos de las clases y capas subalternas, pudiera suscitar uno u otro personaje del elenco bolivariano ellos son percibidos como representantes de la nueva etapa histórica por la que comenzó a transitar Venezuela desde comienzos de 1999, y ese pueblo no está dispuesto a regresar al pasado. La oposición, al menos hasta ahora, no aparece como una alternativa ni cuenta con un referente capaz de derrotar al chavismo. Cuesta pensar que en la eventualidad de una elección presidencial -precipitada por la inhabilitación absoluta que pudiera tener Hugo Chávez para asumir la presidencia- Capriles pudiera construir un liderazgo que, más allá de la mercadotecnia política ofrecida y financiada por Estados Unidos, tuviera la fuerza necesaria como para oponerse a la eficacia práctica del legado histórico del chavismo. Es decir, a la ciudadanización de grandes masas tradicionalmente excluidas y explotadas y a los grandes avances en materia de salud, educación, cultura, vivienda, seguridad social  y recreación En este sentido podría arriesgarse la hipótesis de que el proceso bolivariano habría pasado un punto de no retorno, constituyendo una sólida y perdurable mayoría electoral suficientemente blindada ante los ocasionales sinsabores de la coyuntura o las frustraciones provocadas por algunas decepcionantes (y puntuales) experiencias de gobierno. La historia del Partido del Congreso en la India, del PRI en México y del peronismo en la Argentina son otros tantos ejemplos que confirman que cuando la hegemonía electoral se asienta sobre las raíces de un proceso de profundas transformaciones –aun cuando se encuentre en curso, como es el caso de Venezuela- la correlación de fuerzas que se arraiga en el plano de lo social y que opone a ricos y pobres, capitalistas y trabajadores, no puede dejar de proyectarse sobre los procesos políticos electorales, eclipsando las circunstanciales oscilaciones de la opinión pública o los cambiantes humores de la sociedad. Esto fue lo que ocurrió en las recientes elecciones venezolanas, que ratifica lo que expresara Fidel en su carta a Nicolás Maduro, el 15 de Diciembre, cuando dijera que tenía la seguridad de que  por dolorosa que fuese la ausencia de Chávez los venezolanos “serían capaces de continuar su obra.” Quienes también van a continuar su obra van a ser los imperialistas y sus aliados locales, de modo que será preciso mantenerse en una actitud de permanente vigilancia. Porque, si no pudieron derrotar al chavismo en las elecciones sólo por un alarde de ingenuidad podría pensarse que ahora archivarán sus proyectos de dominación y se quedarán de brazos cruzados, resignados ante el inapelable veredicto de las urnas.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A financeirização da burocracia sindical no Brasil

Charge: uctasocial.blogspot.com

Alvaro Bianchi e Ruy Braga
dezembro 17th, 2012

Desde a eleição de Lula da Silva, em 2002, a relação do sindicalismo brasileiro com o aparelho de Estado modificou-se radicalmente. Nunca é demais rememorar alguns fatos. Em primeiro lugar, a administração de Lula da Silva preencheu aproximadamente metade dos cargos superiores de direção e assessoramento – cerca de 1.300 vagas, no total – com sindicalistas que passaram a controlar um orçamento anual superior a R$ 200 bilhões. Além disso, posições estratégicas relativas aos fundos de pensão das empresas estatais foram ocupadas por dirigentes sindicais. Vários destes assumiram cargos de grande prestígio em companhias estatais – como, por exemplo, a Petrobrás e Furnas Centrais Elétricas –, além de integrarem o conselho administrativo do BNDES. O governo Lula promoveu, ainda, uma reforma sindical que oficializou as centrais sindicais brasileiras, aumentando o imposto sindical e transferindo anualmente cerca de R$ 100 milhões para estas organizações.
Tudo somado, o sindicalismo brasileiro elevou-se à condição de um ator estratégico no tocante ao investimento capitalista no país. Esta função, não totalmente inédita, mas substancialmente distinta daquela encontrada no período anterior, estimulou Francisco de Oliveira a apresentar, ainda no início do primeiro governo de Lula da Silva, sua hipótese acerca do surgimento de uma “nova classe” social baseada na articulação da camada mais elevada de administradores de fundos de previdência complementar com a elite da burocracia sindical participante dos conselhos de administração desses mesmos fundos.
Na opinião de Oliveira, a aproximação entre “técnicos e economistas doublés de banqueiros” e “trabalhadores transformados em operadores de fundos de previdência” serviria para explicar as convergências programáticas entre o PT e o PSDB e compreender, em última instância, o aparente paradoxo de um início de mandato petista que, nitidamente subssumido ao domínio do capital financeiro, conservou o essencial da política econômica estruturada pelos tucanos em torno do regime de metas de inflação, do câmbio flutuante e do superávit primário nas contas públicas.[1]
Ao mesmo tempo em que Oliveira avançava a tese da “nova classe”, apresentamos a hipótese de que o vínculo orgânico “transformista” da alta burocracia sindical com os fundos de pensão poderia não ser suficiente para gerar uma “nova classe”, mas seguramente pavimentaria o caminho sem volta do “novo sindicalismo” na direção do regime de acumulação financeiro globalizado. Apostávamos que essa via liquidaria completamente qualquer possibilidade de retomada da defesa, por parte desta burocracia, dos interesses históricos das classes subalternas brasileiras. Chamamos esse processo de “financeirização da burocracia sindical”.[2]
Assim como várias análises críticas do governo do Partido dos Trabalhadores o problema da hipótese da “nova classe” era explicar como se chegou até esse ponto. Não foram poucos os analistas que acreditaram que a Carta ao Povo Brasileiro, na qual Lula da Silva garantia a segurança dos operadores financeiros, teria modificado de modo radical o curso seguido até então pelo PT e seu candidato. A tese de uma transformação abrupta e imprevista só poderia encontrar apoio na ingenuidade do analista ou na sua incapacidade de enxergar as óbvias mudanças que se processavam nesse partido. A hipótese da “financeirização da burocracia sindical” enfrentava esse problema e localizava sua origem em uma burocracia sindical presente no partido desde seus primeiros passos no ABC paulista e que ao longo dos anos 1990 associou-se gradativamente ao capital financeiro. A trajetória do PT só surpreendeu quem não quis ver ou ouvir.
A história recente da burocracia do Sindicato dos Bancários de São Paulo é exemplar. Como muitas entidades filiadas à CUT, a dos bancários de São Paulo alinhou-se com a administração Lula da Silva,  transformando-se em porta-voz do governo na categoria. Em todas as situações nas quais os trabalhadores enfrentaram o governo, a diretoria dessa entidade procurou colocar-se na condição de amortecedor do conflito social, papel desempenhado pelos tradicionais pelegos sindicais. No jornal e nas revistas do Sindicato a propaganda do governo dá o tom.[3] O “Sindicato cidadão” deu lugar ao “Sindicato chapa-branca”.
Este não é, entretanto, um caso de simples adesismo. É possível dizer que a cúpula dos bancários de São Paulo foi o principal meio de ligação da aliança afiançada por Lula da Silva entre a burocracia sindical petista e o capital financeiro. Na verdade, como previmos, o cimento desse pacto foram os setores da burocracia sindical que se transformaram em gestores dos fundos de pensão e dos fundos salariais. O Sindicato dos Bancários de São Paulo forneceu os quadros políticos para essa operação. Enquanto os sindicalistas egressos das fileiras dos metalúrgicos do ABC ocupavam-se da política trabalhista e Luiz Marinho tomava assento no Ministério do Trabalho, os bancários de São Paulo voavam em direção ao mercado financeiro.
Pontos importantes de nosso argumento foram corroborados pela pesquisa de Maria Chaves Jardim que revelou a existência do que chamou de “elite sindical de fundos de pensão”. Os principais expoentes dessa elite seriam Luiz Gushiken, Ricardo Berzoini e Adacir Reis. Segundo a pesquisadora, “os membros dessa ’elite’ são oriundos do setor bancário de São Paulo, e fazem parte do núcleo formulador das políticas do PT; passaram pela FGV/SP, são de origem social de classe média, do sexo masculino, considerados brancos e heterossexuais.”[4] A esta lista seria possível acrescentar o nome dos ex-sindicalistas Sérgio Rosa e Gilmar Carneiro, este último também egresso da FGV.
As pretensões dessa “nova elite” eram antigas. Gilmar Carneiro, presidente do sindicato entre 1988 e 1994, declarou quando ainda era diretor do Sindicato dos Bancários, que ao fim de seu mandato poderia ser diretor do Banco do Estado do Rio de Janeiro do qual havia sido funcionário. Seu sonho não foi realizado, mas, logo a seguir, Carneiro transformou-se em diretor de um dos braços financeiros do Sindicato, a Cooperativa de Crédito dos Bancários de São Paulo. Seu predecessor Luiz Gushiken, presidente de 1985 a 1987, foi mais longe. No começo dos anos 2000, Gushiken mantinha a empresa Gushiken & Associados, juntamente com Wanderley José de Freitas e Augusto Tadeu Ferrari. Com a vitória de Lula da Silva a companhia mudou de nome e passou a se chamar Globalprev Consultores Associados. O ex-bancário retirou-se da empresa e coincidentemente esta passou, logo a seguir, a fazer lucrativos contratos com os fundos de pensão.[5] Tornou-se, assim, eminência parda dos fundos de pensão estatais sendo decisivo para a indicação do comando do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, a Previ, da Petrobras, a Petros, e da Caixa Econômica Federal, a Funcef.
O sucessor de Gushiken e Carneiro, Ricardo Berzoini, tem também sólidos laços com o sistema financeiro. Foi ele o promotor da reforma da previdência, que além de retirar direitos dos trabalhadores abriu o caminho para instituição da previdência complementar. Os fundos de pensão estatais e privados foram os grandes beneficiados por essa medida. Berzoini tem sido recompensado. Levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo em 2009 constatou que 43 diretores de fundos de pensão tem vínculos com partidos políticos, a maioria deles com o PT. Desses diretores 56% fizeram doações financeiras a candidatos nas últimas quatro eleições e o então presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, recebeu quase um terço delas.[6]
A conversão de dirigentes sindicais em gestores financeiros tem um caso exemplar: Sérgio Rosa. Este gestor começou sua carreira como funcionário do Banco do Brasil, integrando a diretoria do Sindicato dos Bancários de São Paulo na gestão de Luiz Gushiken. Em 1999, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, Rosa assumiu um cargo de diretor da Previ, representando os funcionários do banco. Com a posse de Lula da Silva, passou à posição de presidente da Previ, comandando o maior fundo de pensão da América Latina e o 25º do mundo em patrimônio. Após o final de seu mandato assumiu o comando da Brasilprev, a empresa de previdência aberta do Banco do Brasil. Em janeiro de 2011, aos 50 anos, Rosa aderiu ao “programa de desligamento de executivos” do BB e se aposentou.[7]
A financeirização da burocracia sindical é um processo que divide fundamentalmente a classe trabalhadora e enfraquece a defesa de seus interesses históricos. Na condição de gestores dos fundos de pensão, o compromisso principal deste grupo é com a liquidez e a rentabilidade de seus ativos. Muitos têm argumentado que os fundos teriam um papel importante na seleção de investimentos ecologicamente sustentáveis e geradores de empregos. Pura enganação.
Os fundos de pensão brasileiros têm atuado como uma linha estratégica do processo de fusões e aquisições de empresas no país e, consequentemente, estão financiando o processo de oligopolização econômica com efeitos sobre a intensificação dos ritmos de trabalho, o enfraquecimento do poder de negociação dos trabalhadores e o enxugamento dos setores administrativos. Isso sem mencionar sua crescente participação em projetos de infraestrutura, como a usina de Belo Monte, uma das principais fontes de preocupação dos ambientalistas brasileiros.[8]
Tendo em vista a natureza semiperiférica de sua estrutura econômica, o Brasil apresenta importantes dificuldades relativas ao investimento de capital. A taxa de poupança privada é historicamente baixa e a solução para o investimento depende fundamentalmente do Estado. Os fundos de pensão atuam nesta linha, buscando equacionar a relativa carência de capital para investimentos. O curioso é que, no período atual, a poupança do trabalhador, administrada por burocratas sindicais oriundos do novo sindicalismo, está sendo usada para financiar o aumento da exploração do trabalho e da degradação ambiental.

Notas:
[1] Francisco de Oliveira. Critica a razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p 147.
[2] Alvaro Bianchi; Ruy Ruy. Brazil: The Lula Government and Financial Globalization. Social Forces, Chapel Hill, v. 83, n.4, p. 1745-1762, 2005.
[3] O site do Sindicato dos Bancários de São Paulo parece uma peça de campanha eleitoral. Em 2011 podia se ler nele: “A estabilidade econômica, com crescimento médio de 3,6% da economia a cada ano desde 2002 e a criação, no mesmo período, de 10,8 milhões de novos postos de trabalho no mercado formal, reforçaram o poder dos trabalhadores e deram base para a política de valorização do salário mínimo e da correção da tabela do IR, entre outros avanços importantes garantidos durante os oito anos do governo Lula.”
[4] Maria Chaves Jardim. “Nova” elite no Brasil? Sindicalistas e ex-sindicalistas no mercado financeiro. Sociedade e Estado. Brasília, v. 24, n. 2,  2009.
[5] Ronaldo França. Ação entre amigos. Veja, n. 1912, 6 jul. 2005 e Fundos de pensão contratam antigos sócios de Gushiken. Folha de S. Paulo, 3 jul. 2005, Primeiro Caderno, p. 12. Há indícios de que a influência de Gushiken não diminuiu após sua saída do governo. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo: da “lista dos dez maiores fundos de pensão de estatais brasileiras, seis estão sob comando do PT e a maioria deles ainda é dirigida por apadrinhados dos ex-ministros petistas José Dirceu e Luiz Gushiken, que deixaram o governo há quase quatro anos, em meio ao escândalo do mensalão.” (Dirceu e Gushiken ainda dão as cartas nos fundos. O Estado de S. Paulo, 4 mar. 2009.)
[6] Ranier Bragon. PT tem diretores em 7 dos 10 maiores fundos. Folha de S. Paulo, 8 mar. 2009.
[7] Um relato minucioso da trajetória de Rosa pode ser lido em Consuelo Dieguez. Sérgio Rosa e o mundo dos fundos. Revista Piauí, São Paulo, n. 35 agosto de 2009.
[8] Aliás, o silêncio da CUT a respeito das greves operárias nas obras do PAC, especialmente em Jirau, sem mencionar sua completa inação após o anúncio da empresa Camargo Corrêa de demitir 4.000 trabalhadores, poucas horas depois de um acordo coletivo com a mesma empresa ter sido celebrado pela central, obviamente não são produtos de sua súbita inexperiência à mesa de negociação. Muito ao contrário: a iminência de grandes eventos como a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas do Rio, em 2016, aumenta exponencialmente a demanda por investimentos em infraestrutura que dependem fundamentalmente do capital estatal e dos fundos salariais. Desde que não hajam atrasos nas obras, o que implica, naturalmente, a “pacificação” dos canteiros e a supressão de movimentos grevistas, trata-se de lucro líquido e certo para a burocracia sindical financeirizada. Ainda que às custas da crescente degradação das condições de trabalho nos canteiros de obras.

Museu Pedagógico e Editora Átomo Alínea lançam novo livro


Estado, Políticas Públicas e Capitalismo: múltiplas interpretações


José Rubens Mascarenhas de Almeida e João Diógenes Ferreira dos Santos (Orgs.)

SINOPSE

Seguindo a sanha multidisciplinar que caracteriza as publicações elaboradas no seio do Museu Pedagógico, “Estado, políticas públicas e capitalismo: múltiplas interpretações” não foge à linha político-acadêmica desse espaço de produção de saberes. Este livro apresenta um conjunto de produções acadêmicas que contemplam distintas orientações políticas e acadêmico-científicas, possibilitando enfoques que partem de diversas abordagens atualmente circundantes da produção de conhecimento, reflexo de inquietudes relativas ao fazer epistemológico, social, histórico e político que cingem os saberes.
Os autores deste livro apresentam argumentações oportunas sobre a natureza e a história política do capitalismo, seus modelos operativos, usos e implicações sobre o presente, à luz de direções teóricas e epistemológicas distintas, mas fundamentadas em correntes críticas a seus ensinamentos políticos, morais e às suas formas mutantes de expressão.

SUMÁRIO

Apresentação

Capítulo 1
A Atuação dos Países Desenvolvidos e dos Organismos Internacionais e a Construção do Consentimento Político na Disseminação da Agenda da Globalização
Álvaro Alves de Moura Jr.

Capítulo 2
A Crise do Capital, a Reestruturação Produtiva e o Estado: elementos para se pensar o trabalho na sociedade contemporânea
Ana Patrícia Dias

Capítulo 3
Estado Ampliado e Hegemonia no Pensamento de Gramsci
Wilson da Silva Santos

Capítulo 4
Lutas Contra o Um: notas do diálogo entre uma Antropologia e um Marx contra o Estado
Jean Tible

Capítulo 5
Um Olhar Sobre o Capitalismo e a Produção da Violência: um diálogo com William Shakespeare
João Diógenes Ferreira dos Santos

Capítulo 6
A Individualidade do Proletariado Contemporâneo: da Muralha do Fordismo à Superfície Flutuante da Acumulação Flexível
Juliana Sonaglio

Capítulo 7
Política, Trabalho e o Processo de Constituição em Classe do Novo Operariado Brasileiro
Cristiano Ferraz

Capítulo 8
A Educação do Campo para os Povos do Campo: das contradições capitalistas às possibilidades de superar a educação rural
Fátima Moraes Garcia

Capítulo 9
Os Referenciais de Unificação da Classe Dirigente Baiana Durante a Recente Ditadura Brasileira
José Alves Dias

Capítulo 10
A Cidade Urbano-metropolitana de Lauro de Freitas
Cristina Maria Macêdo de Alencar e Maria Helena Ochi Flexor

Capítulo 11
O Sistema Eletrônico de Controle da Produção Acadêmica nas UEBA’s como Política Neoliberal
José Rubens Mascarenhas de Almeida

Sobre os Autores

INFORMAÇÕES TÉCNICAS

Editora          Alínea
Edição            1ª
Data   Dezembro / 2012
ISBN  978-85-7516-616-1
Páginas          224
Formato        14 x 21 cm
Acabamento Brochura com orelhas

Na livraria Libri Laboris R$28,00
Na Livraria Cultura R$ 35,00

domingo, 16 de dezembro de 2012

Bertold Brecht


Bradley Manning relata o inferno que passou nas mãos dos militares dos EUA


O soldado Bradley Manning pode, finalmente, falar publicamente em sua defesa, em uma audiência preliminar ao conselho de guerra a que será submetido no próximo ano. Manning é a suposta fonte do maior vazamento de inteligência na história dos Estados Unidos. Nos últimos dois anos, ele sofreu calvário de encarceramento em confinamento solitário, em condições cruéis e degradantes que muitos sustentam equivaler à tortura. O artigo é de Amy Goodman.
Amy Goodman
Democracy Now

O soldado Bradley Manning pode, finalmente, falar publicamente em sua defesa, em uma audiência preliminar ao conselho de guerra a que será submetido no próximo ano. Manning é a suposta fonte do maior vazamento de inteligência na história dos Estados Unidos. O soldado, que trabalhava como analista de inteligência no Exército dos Estados Unidos e tinha acesso á informação ultra-secreta, foi enviado ao Iraque. Em abril de 2010, Wikileaks publicou um vídeo onde um helicóptero Apache, das Forças Armadas estadunidenses, dispara contra uma dezena de civis, entre eles dois funcionários da Reuters, um câmera e seu chofer, em Bagdá.
Um mês depois da publicação do vídeo, Manning foi preso no Iraque e acusado de ter vazado o vídeo e outras centenas de milhares de documentos. Assim começou seu calvário de encarceramento em confinamento solitário, em condições cruéis e degradantes que muitos sustentam equivaler à tortura, desde sua detenção no Kuwait até os meses de detenção na base militar Quantico, na Virgínia, Estados Unidos. Após a condenação mundial contra suas condições de detenção, as forças armadas estadunidenses transferiram Manning para um centro de detenção em Fort Leavenworth, Kansas, onde as condições não são tão severas.
Enquanto Manning enfrenta 22 acusações em um conselho de guerra que pode condená-lo à prisão perpétua, seu advogado argumentou na audiência preliminar que o caso deveria ser encerrado por causa do castigo ilício aplicado ao soldado antes do julgamento.
O advogado constitucionalista de longa trajetória, Michael Ratner, encontrava-se na sala de audiências em Fort Meade, Maryland, no dia em que Manning prestou seu depoimento. Ratner descreveu a cena: “Foi uma das cenas mais dramáticas que já vi em uma sala de audiências (...)
Quando Bradley começou a falar não estava nervoso. Seu testemunho foi extremamente comovedor, realmente emotivo para todos nós, mas especialmente, como é evidente, para o próprio Bradley pelo que teve que suportar. Foi terrível o que aconteceu em dois anos, mas ele descreveu tudo com riqueza de detalhes, de um modo eloquente, inteligente e consciente”.
Ratner disse que Manning descreveu como ficou detido em uma jaula no Kuwait: “Havia duas jaulas. Disse que eram como jaulas para animais. Estavam sob uma tenda, só estas duas jaulas, uma ao lado da outra. Uma delas continha alguns dos pertences de Manning, na outra, onde ele estava, havia uma pequena cama, uma estante e um vaso sanitário. Ele permaneceu nesta jaula escura durante quase dois meses. Ele foi retirado dela por curto espaço de tempo e depois, sem dar explicações, voltaram a colocá-lo na jaula (...) Bradleuy disse sobre esse período: “Creio que perdi a noção do tempo. Não sabia se era dia ou noite. Meu mundo se tornou muito pequeno. Converteu-se nessas duas jaulas”. Ratner acrescentou: “Isso quase o destruiu”.
Depois de sua detenção no Kuwait, Manning foi transferido para uma base militar em Quantico. Seu advogado, David Coombs, disse este mês: “O modo pelo qual trataram Brad em Quantico ficará gravado para sempre na história de nosso país como um momento lamentável. Não foi somente estúpido e contraproducente. Foi criminoso”.
O advogado Michael Ratner também descreveu o momento no qual Bradley Manning explicou o que ocorreu em Quântico: “Bradley contou como era estar nessa cela, na qual deve dormir em uma pequena cama, com uma luz frontal apontada na sua direção, que deixavam acesa para poder observá-lo. Se ele se movia para evitar a luz iam acordá-lo. Isso acontecia pela noite. Durante o dia, passava de 23 a 23 horas e meia na cela. Às vezes, tinha 20 minutos do que chamavam de “exercício ao sol”, o que não é nada. O que ele podia fazer? Porque supostamente está em serviço, devendo ou estar em pé ou sentado nesta cama de metal com os pés no solo e sem poder apoiar-se em nada. Isso durante 10 ou 15 horas por dia, o que deve se chamar de privação dos sentidos”.
O relator especial das Nações Unidas sobre a tortura, Juan Méndez, tentou visitar Manning, mas acabou se negando quando as forças armadas disseram que iriam vigiar e gravar a visita. Méndez informou: “A detenção em confinamento solitário é uma medida severa que pode provocar grave dano psicológico e fisiológico aos indivíduos, independentemente de sua situação específica”.
Os oficiais do exército descreverem o tratamento cruel aplicado a Manning como necessário, devido ao fato de que, segundo afirmaram, havia risco de que ele tentasse o suicídio. No entanto, o capitão da Marinha, William Hocter, um psiquiatra forense de Quântico, disse que não existia tal risco, mas que não o escutaram. “Sou médico chefe há 24 anos e nunca vi algo igual”, declarou Hocter. “Estava claro que estavam decididos a tomar um determinado curso de ação e pouco importavam minhas recomendações”.
A primeira etapa do conselho de guerra, que Coombs denomina “a etapa das moções de castigo ilícito antes do julgamento”, considerou uma moção da defesa pedindo o fim do caso. Embora seja improvável que isso aconteça, aqueles que seguem o caso sustentam que a defesa solicitou, como alternativa, que o conselho de guerra considere reduzir a pena de Manning resultante do julgamento a uma razão de dez dias por cada dia que teve que suportar o trato cruel e degradante no Kuwait e em Quantico, o que, em tese, poderia significar uma redução de seis anos em sua condenação à prisão.
Bradley Manning é acusado de vazar uma série de documentos para Wikileaks, que incluem o vídeo do massacre de Bagdá, duas grandes séries de documentos relacionados com os registros militares estadunidenses das guerras do Iraque e do Afeganistão e, talvez o mais importante, o vazamento de mais de 250 mil telegramas do Departamento de Estado dos EUA, conhecida como “Cablegate” (em referência a Watergate). Após uma avaliação realizada em agosto de 2010, o então Secretário de Defesa, Robert Gates, sustentou que a publicação dos documentos “não revelou fontes nem métodos de inteligência importantes”.
Manning concordou em se declarar culpado pelo vazamento dos documentos, mas não pelas acusações mais graves de espionagem e nem de ter ajudado o inimigo.
Bradley Manning completará 25 anos dia 17 de dezembro na prisão, data que também marca o segundo aniversário da morte do jovem tunisiano que se imolou em protesto contra o governo corrupto de seu país, dando início à Primavera Árabe. Há um ano, quando a revista Time nomeou o “manifestante”, em termos genéricos, como Personagem do Ano, o lendário informante dos Documentos do Pentágono, Daniel Ellsberg, elogiou essa decisão em uma declaração que também se aplica à realidade atual: “A capa da revista Time nomeia o manifestante, um manifestante anônimo, o “Personagem do Ano”, mas é possível colocar um rosto e um nome nesta foto do “Personagem do Ano”. O rosto estadunidense que apareceria nesta capa seria o do soldado Bradley Manning”.
(*) Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior

O que é normal numa sociedade doentia?


sábado, 15 de dezembro de 2012

Uma crítica de Kurz: objetivismo teórico, catastrofismo econômico e impotência política

Valério Arcary*


Duas luvas da mão esquerda não
 perfazem um par de luvas.
                                                                                      Duas meias verdades não perfazem uma verdade.
                                                                          Eduard Douwes Dekker, alias,  Multatuli (1820/87) Idéias.

      A elaboração de Robert Kurz chegou a ter alguma repercussão no Brasil nos anos noventa, e ainda hoje mantém uma pequena influência em círculos universitários e, curiosamente, em Fortaleza. Os seus argumentos merecem ser considerados e submetidos à crítica.
       Argumentamos em outros textos que, no século XX, revoluções foram mais freqüentes que em qualquer outra época histórica. E continuam sendo cada vez mais prováveis. Em contrapartida, concluímos, também, que as transições ao socialismo revelaram-se muito mais difíceis do que foi elaborado na tradição marxista. Em outras palavras, ocorreram no que diz respeito à elaboração do marxismo clássico sobre a teoria da revolução, duas surpresas históricas.
      Surpresas não são acidentes históricos.[1] São desenvolvimentos inesperados que contrariam prognósticos e exigem atualização teórica, mas confirmam uma tendência, revelam uma constante, sugerem um padrão. A atualização de uma teoria não diminui a sua força explicativa, apenas confirma a sua vigência. Teorias que não se renovam, dogmatizam-se. Nenhuma teoria com ambição científica permanece válida se não incorpora revisões impostas pelas transformações da realidade.
     Todavia, sempre que foram necessárias atualizações teóricas, o grau de dispersão política se eleva à enésima potência. Este texto defende duas teses programáticas fortes do marxismo que julgamos serem vitais: a centralidade da luta política marxista pela direção do proletariado, e a necessidade da conquista pelo proletariado da direção da luta de todos os oprimidos.
       Esta é a dimensão subjetiva do desafio porque remete ao processo de formação da consciência de classe. Em outras palavras, ser marxista no início do século XXI é uma aposta estratégica que tem dois alicerces: a confiança histórica de que enquanto o proletariado existe e luta poderá redescobrir a grandeza social de sua força; e a confiança de que a luta política dos revolucionários pela direção do proletariado poderá abrir o caminho da revolução socialista.

                   Quarenta anos de revoluções interrompidas

        Consideremos, primeiro, o curso inesperado da “longa marcha” da revolução mundial e, em seguida, as hipóteses de Kurz. A primeira surpresa foi o grau elevadíssimo de substitucionismo social nas revoluções do século XX. A maioria das revoluções proletárias foi derrotada (França/1871; Alemanha/1923; Espanha/1936; Grécia/1945; Bolívia/1952; Portugal/1975, entre outras) e a maioria das revoluções vitoriosas não teve como sujeito social a classe operária (Yugoslávia/1945; China 1949; Cuba 1959/1961; Vietnam 1975). O bloco de classes disposto a ações revolucionárias foi muito mais amplo do que a hipótese formulada por Léon Trotsky. E ele foi, entre os marxistas revolucionários da primeira metade do século XX, aquele que com maior audácia atualizou a formulação do marxismo do século XIX, na teoria da revolução permanente.
      Em outras palavras, em sociedades agrárias ou muito pouco urbanizadas, os camponeses e massas populares não proletárias, empurrados pelas seqüelas de crises e guerras devastadoras, cumpriram um papel revolucionário inesperado que o marxismo não tinha previsto. Mas, se o protagonismo social revolucionário das classes oprimidas não proletárias significou que o bloco social revolucionário poderia ser mais amplo e, portanto, mais forte demonstrou, também, os limites de processos revolucionários liderados por movimentos nacionalistas.
      Todas as experiências de transição ao socialismo foram, em poucas décadas, bloqueadas. As restaurações capitalistas foram lideradas, invariavelmente, pelos aparelhos burocráticos estatais. As vitórias nacionais revolucionárias dos anos do pós-guerra deram lugar a derrotas que enlamearam a bandeira do socialismo. Um processo tão complexo de dialética de vitórias e derrotas não poderia deixar de provocar perplexidades. O paradoxo da história foi que não faltaram revoluções nos últimos cem anos, mas em nenhuma sociedade transformada por processos revolucionários se abriu e se manteve uma transição ao socialismo.
       As revoluções do século XX foram, em sua maioria, revoluções políticas que não transbordaram em revoluções sociais. Dialeticamente, foram revoluções sociais interrompidas. Revoluções políticas transformam a forma da dominação do Estado, mas não deslocam o controle do Estado das mãos da classe dominante, porque não desafiam o fundamento histórico da dominação. Revoluções sociais são aquelas que alteram as relações econômico-sociais porque desafiam as relações de propriedade. 
        Em outras palavras, o século XX foi o século mais revolucionário da história, mas só excepcionalmente as revoluções se radicalizaram até o limite do rubicão do assalto ao capitalismo. A maioria das situações revolucionárias evoluiu até à queda de regimes tirânicos, ditaduras odiadas ou governos execrados, entretanto, pouparam a burguesia que protegia seus interesses com esses regimes. Portanto, o intervalo histórico entre as revoluções democráticas e as revoluções anticapitalistas, ou entre os Fevereiros e os Outubros, por analogia com a revolução russa de 1917, não deixou de aumentar.

                      A tentação catastrofista da iminência da crise final

         O que nos diz Kurz? Em nossa opinião, a fuga em frente preferida de todas as análises de inclinação objetivista na história do marxismo, incluindo uma parte da tradição trotskista. O centro da questão metodológica foi desviar o foco para a análise da crise do capitalismo, para afastar-se da espinhosa análise da crise do movimento operário. Defende que o novo quadro histórico se definiria pela tendência ao esgotamento da forma mercadoria e pela anulação do valor, quase simultaneamente a conclusões semelhantes, neste tema, desenvolvidas por Mészáros:

Se, no início do século XX, a transformação do modo de produção capitalista  (...) (imperialismo, economia de guerra, taylorismo, ideologização das massas, etc.), (...) talvez a ruptura de época, no final do século XX, exija uma transformação ainda mais ampla. (...) Só agora, passado o período de incubação dos anos 80, as novas forças produtivas pós-fordistas da microeletrônica e seus conceitos correlatos de racionalização (descritos em seu con­junto, de acordo com o referencial teórico escolhido, como segunda ou terceira revolução industrial) mostram seu verda­deiro potencial de crise: pela primeira vez, a riqueza material (e também ecologicamente destrutiva) é produzida antes pelo emprego tecnológico da ciência que pelo dispêndio trabalho humano abstrato. O capital começa a perder sua capacidade de valorização absoluta e alcança com isso aquele estágio, ex­trapolado logicamente por Marx, no qual a forma de sociali­zação do sistema produtor de mercadorias – que "repousa no valor" – esbarra em seus limites históricos. [2]

        A hipótese de Kurz é instigante, mas flerta com o catastrofismo, porque sugere a possibilidade de que uma crise sem saída estaria em gestação. A premissa implícita por trás desta hipótese é que as crises do passado foram insuficientes para colocar na ordem do dia a estratégia da revolução mundial. Nessa perspectiva as revoluções do século XX foram prematuras. Por um lado, defende que o capitalismo já teria mergulhado a civilização na barbárie. Contudo, por outro, concentra-se na análise das mudanças trazidas pelas inovações tecnológicas da micro-eletrônica, exaltadas como um terceira revolução industrial, sem se perguntar qual o grau de coerência entre os dois postulados.
         Kurz não parece dar importância aos desdobramentos destas duas linhas de interpretação. Primeiro, não parece difícil admitir que o capitalismo ameaça a vida civilizada. A questão é precisar, rigorosamente, se a barbárie já abriu o caminho ou não. A hipótese sempre foi cara para todos os marxistas, desde Engels e Rosa Luxemburgo. Se  isso aconteceu, correspondeu a uma mudança de época. Consiste em afirmar que o capitalismo do final do século XX, em algum momento, seu um salto de qualidade regresssivo, e impôs uma derrota histórica irreversível.
        Segundo, se o capitalismo ainda estava desenvolvendo forças produtivas e não forças destrutivas, e os computadores e a telemática já permitem ir além do valor e garantir a socialização imediata, significa que aconteceu um importante progresso material e cultural e, portanto, parece exagerado caracterizar a sociedade contemporânea como um estágio de barbárie.  A análise de Kurz anuncia os limites históricos do modo de produção capitalista, mas quase nada sobre as perspectivas da revolução:

A crise da forma-mercadoria é, no entanto, filtrada pelo movimento do mercado mundial (...) luta essa que pos­sibilita (e domina) as próprias forças produtivas que serão res­ponsáveis pela desvalorização da força de trabalho. Os capitais mais produtivos abatem concorrencialmente aqueles que não podem mais acompanhar o elevado padrão de produtividade, mobilizando para tanto vultuosas somas de capital fixo. Os velhos perdedores e os novos retardatários só podem continuar no páreo à custa de baixos salários (ou ainda trabalho forçado ou escravo)(...)Podia parecer, à primeira vista, que o processo de crise transcorreria de maneira escalonada(...) e deixaria por último as nações mais fortes do ponto de vista do capital, capazes de sustentar por mais tempo o processo de simulação monetária através do endividamento do Estado e do sistema de crédito. Primeiro sucumbiram as economias do Terceiro Mundo e do socialismo de Estado, que passaram a ser exemplo de uma "modernização tardia", fadada desde então ao fracasso no interior do hori­zonte burguês. Nos anos 90, porém, a crise parece avançar a passos largos em direção às economias nacionais estabelecidas. [3]

          Estamos diante de uma análise que identifica nas novas forças produtivas a capacidade de abrir uma época histórica em que mudam os fundamentos do processo de acumulação do capital. Inaugura-se uma fase de desenvolvimento que se definiria, tendencialmente, pela anulação histórica do valor.
      A nova época histórica teria como traços constituintes a crescente barbarização das relações sociais, como expressão dos limites do trabalho com a forma mercadoria. Em outras palavras, a proporção de valor agregado pelo trabalho vivo seria cada vez mais irrelevante, na medida que a ciência e a tecnologia se emancipam como a principal força produtiva, e a queda da taxa média de lucro atingiria tal nível, que o horizonte histórico dos limites da acumulação estariam cada vez mais próximos.
    Decorre desta análise, de uma radicalidade objetivista que surpreende, uma nova compreensão do papel dos sujeitos  sociais na  luta anticapitalista. Kurz desenvolve a crítica da esquerda a partir da ótica da necessidade de superar o politicismo. A crítica do politicismo é compreendida com uma superação da política. Mas a política não deve ser reduzida pela crítica marxista à sua dimensão mais cenográfica, mesquinha, ritualizada, espectacularizada. A fórmula anti-politicista de Kurz não consegue esconder a tentação propagandista.
      A disputa pela direção do proletariado contra os aparelhos reformistas sempre foi o beabá do marxismo. Aqueles que estão em minoria e querem lutar para ser maioria não  podem se permitir o luxo de escolher o terreno da disputa, porque a relação de forças não o permite. O terreno da política- as eleições nos sindicatos, as campanhas salariais, a organização de marchas, a participação nas eleições - é imposto aos revolucionários por essa necessidade. As ilusões da classe operária nas possibilidades de regulação do capitalismo não se explicam sem a presença ativa, esmagadora, opressiva de aparelhos burocráticos que dependem destas ilusões, e parasitam a insegurança dos trabalhadores sobre sua capacidade de luta. Estes aparelhos não podem ser derrotados sem ser confrontados. A alternativa seria uma opção de auto-exclusão de tipo “anarquismo” tardio.
       O enfoque anti-politicista leva a desaparecer da análise uma história centrada nos sujeitos sociais e na luta de classes. Kurz não procurou esconder o seu propagandismo, não há mediações, e o derrotismo se manifesta nas entrelinhas. Portanto, um pouco à maneira luckásciana, mas por um outro ângulo, é um anti-subjetivista. A impotência política revela-se de forma desinibida

                     Crise de direção ou aburguesamento do proletariado?

    A segunda surpresa histórica foi a imaturidade do proletariado em afirmar a sua independência política e manter a vigilância e controle sobre as suas organizações. O grau de dificuldade do proletariado remete à sua condição de classe, economicamente, explorada, socialmente oprimida e politicamente dominada.
      Muito maior do que o previsto pelo marxismo do século XIX, a debilidade subjetiva da classe operária se expressou na longevidade da influência da social democracia e do estalinismo, de longe os dois maiores aparelhos burocráticos que parasitaram a representação política dos trabalhadores no século XX. O substitucionismo social e, em conseqüência, o papel de organizações nacionalistas foi uma das pressões que levou uma parte do marxismo a dizer “adeus” ao proletariado. Outro aspecto da análise de Kurz é o deslocamento do protagonismo revolucionário das mãos do proletariado:

 Os remanescentes do velho radicalismo chegam a ponto de denunciar os prognósticos de uma transição iminente para a barbárie global como ‘falsa certeza’(...) Os náufragos críticos da sociedade foram de tal modo arruinados pela política e imbecilizados pela agitação, que só pode lhes parecer amalucada a tentativa de analisar uma revolução industrial (a microeletrônica), lan­çando mão de conceitos teóricos de crise. Eles tomam por supérfluas tanto uma definição de época, quanto uma nova historização do desenvolvimento interno do capitalismo, pois este, concebido em conceitos escolares, nunca deixou de ser o mal de sempre, imutável (...) Eles não ousam mesmo acusar de ‘objetivis­mo’, precisamente, a análise e a crítica das estruturas (real­mente) objetivadas, por terem desde sempre operado com conceitos burgueses irrefletidos de sujeito e vontade. Não che­ga a espantar, assim, que a demanda por uma supressão da forma-mercadoria e da forma-política, que no atual estágio da crise do sistema mundial plenamente desenvolvido deve ser formulada de maneira muito distinta que no passado, seja vista como reformismo ou fundamentalismo. [4]

        Segundo Kurz, o proletariado se integrou de forma irreversível: uma nova atualização das teses “soixante-huitards” vaticinando o aburguesamento dos trabalhadores. Mas uma classe que é explorada não pode renunciar à luta. Pode, simplesmente, escolher quando sente confiança em si mesma para lutar. Esta disposição de luta foi sabotada durante décadas pelos aparelhos reformistas, em especial o estalinista, que semearam entre os trabalhadores e a juventude a ilusão das negociações, pactos, e concertações para evitar situações de confronto, enquanto faziam a gestão do mal menor. Mas há um limite histórico para a eficácia dos aparelhos como última linha de defesa do sistema.
     Todas as grandes revoluções políticas da nossa época foram, também, revoluções sociais em processo, porque só a mobilização de massas em grande escala pôde garantir a vitória das revoluções democráticas. Mesmo quando classificadas como democráticas, pelas tarefas colocadas, as revoluções políticas merecem caracterizadas como revoluções sociais incompletas, ou interrompidas, pelos sujeitos sociais que foram convocados para o seu triunfo. A armadilha da história é que as revoluções democráticas são processos em disputa cujo desenlace é incerto.
        Não eram vermelhas as bandeiras dos jovens que saíram às ruas de Túnis, do Cairo, da Líbia, do Bahrein, do Yemen, e de Aleppo na Síria. Inexistem organizações marxistas revolucionárias importantes no mundo árabe. A revolução voltou à primeira cena da arena mundial, porém, as massas populares em luta contra as ditaduras como as de Ben Ali, Mubarak, Gadhafi, Assad e os outros califas não fizeram reivindicações anticapitalistas. Entretanto, as situações revolucionárias abertas nesses países ainda não se encerraram.
      Aonde os ditaduras foram derrubadas, a revolução democrática foi uma antessala de combates de classe cuja dinâmica histórica será, objetivamente, anticapitalista, porque a contra-revolução da nossa época histórica foi, invariavelmente, burguesa. Mas este terrível aprendizado de que as revoluções democráticas foram revoluções inacabadas terá que ser feito no calor das lutas que virão, ou seja, com uma margem de improviso político elevado. 
* Professor do IFSP.


[1] Acidente histórico é uma fórmula que remete, entre outros temas, a formas estatais ou regimes políticos que foram bloqueados, destruídos ou  derrotados. Tenta explicar, em elevado grau de abstração, processos muito singulares, como as Missões Jesuíticas no Cone sul da América Latina no final do século XVII e início do XVIII, por exemplo. Pode ser considerado um acidente histórico uma evolução temporária, porém, insustentável ou até anacrônica de uma sociedade, ou dentro de uma nação. O conceito surgiu nas Lições sobre a filosofia da História de Hegel, e foi usado, também, por alguns marxistas. Uma das polêmicas sobre o tipo de sociedade que surgiu na URSS com o regime estalinista é se seria ou não um acidente histórico. O texto de Hegel pode ser encontrado em:
Consulta em 13/12/2012
[2] KURZ, Robert. Os últimos combates. Petrópolis , Vozes , 1998. p.67-8.
[3] KURZ, Robert. Os últimos combates. Petrópolis , Vozes , 1998. p.67-8.
[4] KURZ, Robert. Os últimos combates. Petrópolis, Vozes, 1998. p.75-6.