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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

“Capitalismo tem nome e sobrenome no Brasil”



O cientista político e professor universitário,
 João Roberto Lopes Pinto (Foto Henrique Fornazin)
Estudo aponta quais os principais grupos econômicos que concentram o poder no país

por Vivian Virissimo,
do Brasil de Fato

Em levantamento inédito, o Instituto Mais Democracia (IMD) vai revelar na pesquisa “Quem são os proprietários do Brasil?” os grupos econômicos que são recordistas em concentração de poder no país. O estudo identifica todas as empresas que se articulam com as grandes corporações brasileiras: Vale, Gerdau, Votarantim, JBS, Grupo Ultra, entre outras. Além disso, um ranking vai explicitar nomes e sobrenomes dos proprietários finais dessa intricada rede de poder empresarial.

Ao mesmo tempo, o instituto vai mostrar que essas empresas recebem dinheiro público de estatais brasileiras sem a necessária transparência e controle social. A pesquisa completa será divulgada no próximo dia 12 de dezembro.

“Quem são as famílias? Quem são as pessoas? Normalmente se diz que o capitalismo não tem rosto, não tem nome. Pelo contrário, na maioria dos casos tem nome, sobrenome e endereço. São pessoas que se beneficiam de toda essa estrutura vigente e inclusive de todo o recurso público que é carreado através das estatais e do financiamento público”, explicou um dos coordenadores da pesquisa, o cientista político e professor universitário João Roberto Lopes Pinto.

Diferentemente de outros rankings divulgados pelo jornal Valor Econômico e revista Exame, o foco do Mais Democracia não será mostrar os maiores faturamentos, mas analisar a estrutura de poder por trás das empresas que se articulam com esses grandes grupos. “Com outra perspectiva, o ranking da concentração de poder econômico é um paralelo a esses rankings convencionais, é um ‘contra-ranking’. A primeira diferença é que vamos explicitar, renomear e colocar novos nomes no debate público com base no Índice de Poder Acumulado (IPA). E todas as empresas que estão no topo do ranking são irrigadas pelo dinheiro público”, explicou Pinto.

Geralmente difusas e de difícil acesso, as informações analisadas pelos pesquisadores constam em uma base de dados que está sendo construída por uma cooperativa de jovens desenvolvedores, a Eita – Educação, Informação e Tecnologia para a Autogestão. O ranking está sendo elaborado com base nos dados de 400 empresas de sociedade de capital aberto que foram fornecidas para a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que regula o mercado acionário brasileiro. Além disso, informações disponíveis nas bases de dados Economática e Econoinfo também serão incorporadas. Dessas 400 empresas iniciais, os pesquisadores já estão monitorando mais de 5 mil empresas que atuam no interior delas. O instituto tem como referência uma metodologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Zurich que realiza o cruzamento do faturamento líquido dessas empresas com dados sobre a participação acionária dos proprietários.

O pesquisador revelou algumas empresas que controlam alguns grupos econômicos brasileiros, cujos nomes não costumam ser divulgados. “Não é Odebrecht é Kieppe, não é Vale é Bradesco e Previ, não é JBS é FB Participações, que também controla a Vigor Foods, empresa que controla todo o setor lácteo no Brasil, não é Camargo Corrêa é a Morro Vermelho”, antecipou Pinto. O pesquisador também revelou que no ranking dos maiores proprietários, ao lado do homem mais rico do Brasil, o empresário Eike Batista, está uma das controladoras da Camargo Corrêa, a empresária Dirce Navarro Camargo, com patrimônio de 13,1 bilhões de dólares.

O instituto costuma utilizar o caso da Odebrecht para mostrar o emaranhado de articulações empresariais que compõem os grandes grupos econômicos no modelo capitalista contemporâneo. “A Braskem e a construtora Odebrecht são controladas pela Odebrecht Participações, que por sua vez é controlada pela Odebrecht Sociedade Anônima, que por sua vez é controlada pela Odebrecht Investimento, que por sua vez é controlada Kieppe Participações, depois Kieppe Patrimonial. Ou seja, Kieppe Patrimonial é o nome da Odebrecht e por trás da Kieppe está a família Odebrechet”, explicou João Roberto.

Participação
“O enfrentamento das corporações é um debate necessário, isto está no limite da democracia contemporânea. Com este grau de concentração, não se pode mais tratar essas empresas como se fossem atores individuais. São atores complexos que envolvem atores públicos. E essa rede complexa ninguém conhece ou discute”, afirmou o cientista político.

Em 2013, o Instituto Mais Democracia pretende cruzar o ranking dos proprietários com os dados oficiais sobre financiamento de campanha das últimas eleições. A ideia é analisar o retorno que essas empresas têm com a eleição dos políticos. Além disso, uma plataforma colaborativa com todas as informações utilizadas pelos pesquisadores serão disponibilizadas para a sociedade.

MP DO CEARÁ PEDE DE VOLTA CACHÊ DE IVETE SANGALO


Ceará: entre a seca, a fome e os altos cachês cobrados pelo circo burguês.

Cantora recebeu R$ 650 mil por um show na inauguração de um hospital estadual em Sobral, cidade considerada o berço político do governador Cid Gomes (PSB) e de seu irmão Ciro

24 DE JANEIRO DE 2013 ÀS 07:35

247 – O procurador de Contas do Ceará, Gleydson Alexandre informou que vai pedir o ressarcimento aos cofres públicos do cachê de R$ 650 mil pago pelo governo do Estado à cantora Ivete Sangalo por um show na inauguração de um hospital estadual.

A apresentação foi realizada na sexta-feira, em Sobral, cidade considerada o berço político do governador Cid Gomes (PSB) e de seu irmão Ciro.

Segundo a instituição, o poder público deve apresentar ao menos três orçamentos, mesmo sem licitação, mas o governo só anexou dois. Em um dos documentos apresentados, referente ao show do Réveillon 2011 feito pela própria cantora baiana, o cachê pago pelo Governo do Estado foi de R$ 840 mil.

O Ministério Público de Contas vai apresentar o pedido no dia 5, na volta do recesso do Tribunal de Contas do Estado. Ele listou seis shows da cantora em outras cidades que foram realizados por um valor menor, com variação entre R$ 400 mil e R$ 500 mil.

Ontem, o governador Cid Gomes qualificou o procurador de “garoto que quer aparecer” em função dos questionamentos feitos acerca do cachê. “O que é o Ministério Público de Contas? O que é isso? É um garoto que deseja aparecer e fica criando caso. O Ministério Público é uma parte. Ele entrou com uma ação e o presidente do tribunal indeferiu, mandou arquivar. Ele fez isso para ganhar mídia, para ficar aparecendo na imprensa. Não tenho nada que comentar”.

Na última sexta-feira, antes do show, Cid Gomes já havia reagido contra os questionamentos e afirmado que continuará a realizar eventos do gênero “doa a quem doer". "Ricos é que questionam essas coisas, mas o povo precisa de saúde e educação e também de diversão. Pergunte se a Ivete Sangalo cobra menos do que isso. Se ela cobrar, me avise que eu vou tentar contratá-la mais barato", teria dito o governador, segundo a Folha de São Paulo.
Fonte: Brasil247

O que o filme "Lincoln", de Spielberg, não diz sobre Lincoln



Obra de Francis Bicknell Carpenter, em que
 Lincoln apresenta texto da proclamação
 contra a escravidão, em 1864.
O filme “Lincoln”, de Steven Spielberg, que acaba de estrear no Brasil, narra como esse presidente de forte lembrança popular lutou contra a escravidão e pela transformação dos escravos em trabalhadores. O que a obra cinematográfica não conta, porém, é que Lincoln também lutou por outra emancipação: que os escravos e os trabalhadores em geral fossem senhores não apenas de sua atividade em si, mas também do produto resultante de seu trabalho.

Vicenç Navarro*

O filme “Lincoln”, produzido e dirigido por um dos diretores mais conhecidos dos EUA, Steven Spielberg, fez reviver um grande interesse pela figura de Lincoln, um dos presidentes que, como Franklin D. Roosevelt, sempre apareceu no ideário estadunidense com grande lembrança popular. Destaca-se tal figura política como o fiador da unidade dos EUA, após derrotar os confederados que aspiravam à secessão dos Estados do Sul daquele Estado federal. É também uma figura que se destaca na história dos EUA por ter abolido a escravidão e ter dado a liberdade e a cidadania aos descendentes das populações imigrantes de origem africana, ou seja, a população negra, que nos EUA se conhece como a população afro-americana.

Lincoln foi também um dos fundadores do Partido Republicano, que em suas origens foi diretamente oposto ao Partido Republicano atual - este altamente influenciado hoje por um movimento – o Tea Party – chauvinista, racista e reacionário, por trás do qual existem interesses econômicos e financeiros que querem eliminar a influência do governo federal na vida econômica, social e política do país. O Partido Republicano fundado pelo presidente Lincoln era, pelo contrário, um partido federalista, que considerou o governo federal como avalista dos Direitos Humanos. E entre eles, a emancipação dos escravos, tema central do filme “Lincoln” e para o qual o presidente deu maior expressão. Terminar com a escravidão significava que o escravo passava a ser trabalhador, dono de seu próprio trabalho.

Lincoln, inclusive antes de ser presidente, considerou outras conquistas sociais como parte também dos Direitos Humanos e, entre elas, o direito do mundo do trabalho de controlar não só a atividade em si, mas também o produto resultante dela. O direito de emancipação dos escravos transformava o escravo em uma pessoa livre assalariada, unida – segundo ele – em laços fraternais com os outros membros da classe trabalhadora, independentemente da cor da pele. Suas demandas de que o escravo deixasse de sê-lo e de que o trabalhador – tanto branco como negro – fosse o dono não só de seu trabalho, mas também do produto de seu trabalho, eram igualmente revolucionárias. A emancipação da escravidão requeria que a pessoa fosse dona do seu trabalho. A emancipação da classe trabalhadora significava que a classe trabalhadora fosse dona do produto do seu trabalho. E Lincoln demandou os dois tipos de emancipação. O segundo tipo de emancipação, entretanto, nem sequer é citado no filme Lincoln. Na realidade, é ignorado. E utilizo a expressão “ignorado” em lugar de “escondido” porque é totalmente possível que os autores do filme ou do livro sobre o qual se baseia nem sequer conheçam a história real de Lincoln.

A Guerra Fria no mundo cultural e inclusive acadêmico dos EUA (que continua existindo) e o enorme domínio do que ali se chama a Corporate Class (a classe dos proprietários e gestores do grande capital) sobre a vida, não só econômica, mas também cívica e cultural, explica que a história formal dos EUA que se ensina nas escolas e nas universidades seja muito distorcida, purificada de qualquer contaminação ideológica procedente do movimento operário, seja socialismo, comunismo ou anarquismo. A grande maioria dos estudantes estadunidenses, inclusive das universidades mais prestigiadas e conhecidas, não sabe que a festa de 1º de Maio, celebrada mundialmente como o Dia Internacional do Trabalho, é uma festa em homenagem aos sindicalistas estadunidenses que morreram em defesa de trabalhar oito horas por dia (em lugar de doze), vitória que transformou tal reivindicação exitosa na maioria dos países do mundo. Nos EUA, tal dia, o 1º de Maio, além de não ser festivo, é o dia da Lei e da Ordem - Law and Order Day - (ver o livro People’s History of the U.S., de Howard Zinm). A história real dos EUA é muito diferente da história formal promovida pelas estruturas de poder estadunidenses.

As ignoradas e/ou escondidas simpatias de Lincoln
Lincoln, já quando era membro da Câmara Legislativa de seu Estado de Ilinóis, simpatizou claramente com as demandas socialistas do movimento operário, não só dos EUA, mas também mundial. Na realidade, Lincoln, tal como indiquei no começo do artigo, considerava como um Direito Humano o direito do mundo do trabalho de controlar o produto de seu trabalho, postura claramente revolucionária naquela época (e que continua sendo hoje) e que nem o filme nem a cultura dominante nos EUA lembram ou conhecem, que está convenientemente esquecida nos aparatos ideológicos do establishment estadunidense controlados pela Corporate Class. Na realidade, Lincoln considerou que a escravidão era o domínio máximo do capital sobre o mundo do trabalho e sua oposição às estruturas de poder dos Estados sulinos se devia precisamente a que percebia estas estruturas como sustentadoras de um regime econômico baseado na exploração absoluta do mundo do trabalho.

Daí que visse a abolição da escravidão como a liberação não só da população negra, mas de todo o mundo do trabalho, beneficiando também a classe trabalhadora branca, cujo racismo ele via que ia contra seus próprios interesses. Lincoln também indicou que “o mundo do trabalho antecede o capital. O capital é o fruto do trabalho, e não teria existido sem o mundo do trabalho, que o criou. O mundo do trabalho é superior ao mundo do capital e merece a maior consideração (…). Na situação atual o capital tem todo o poder e há que reverter este desequilíbrio”. Leitores dos escritos de Karl Marx, contemporâneo de Abrahan Lincoln, lembrarão que algumas destas frases eram muito semelhantes às utilizadas por tal analista do capitalismo em sua análise da relação capital/trabalho sob tal sistema econômico.

Será surpresa para um grande número de leitores saber que os escritos de Karl Marx influenciaram Abraham Lincoln, tal como documenta detalhadamente John Nichols em seu excelente artículo “Reading Karl Marx with Abraham Lincoln Utopian socialists, Germam communists and other republicans” publicado em Political Affairs (27/11/12), e do qual extraio as citações, assim como a maioria dos dados publicados neste artigo. Os escritos de Karl Marx eram conhecidos entre os grupos de intelectuais que estavam profundamente insatisfeitos com a situação política e econômica dos EUA, como era o caso de Lincoln. Karl Marx escrevia regularmente no The New York Tribune, o rotativo intelectual mais influente nos Estados Unidos daquele período. Seu diretor, Horace Greeley, se considerava um socialista e um grande admirador de Karl Marx, quem convidou para ser colunista de tal jornal. Nas colunas de seu jornal incluiu grande número de ativistas alemães que haviam fugido das perseguições ocorridas na Alemanha daquele tempo, uma Alemanha altamente agitada, com um nascente movimento operário que questionava a ordem econômica existente. Alguns destes imigrantes alemães (conhecidos no EUA daquele momento como os “Republicanos Vermelhos”) lutaram mais tarde com as tropas federais na Guerra Civil, dirigidos pelo presidente Lincoln.

Greeley e Lincoln eram amigos. Na realidade, Greeley e seu jornal apoiaram desde o princípio a carreira política de Lincoln, sendo Greeley quem lhe aconselhou a que se apresentasse à presidência do país. E toda a evidência aponta que Lincoln era um fervente leitor do The New York Tribune. Em sua campanha eleitoral para a presidência dos EUA convidou vários “republicanos vermelhos” a integrarem-se a sua equipe. Na realidade, já antes, como congressista, representante da cidadania de Springfield no Estado de Ilinóis, apoiou frequentemente os movimentos revolucionários que estavam acontecendo na Europa, e muito em especial na Hungria, assinando documentos em apoio a tais movimentos.

Lincoln, grande amigo do mundo do trabalho estadunidense e internacional
Seu conhecimento das tradições revolucionárias existentes naquele período não era casual, e sim fruto de suas simpatias com o movimento operário internacional e suas instituições. Incentivou os trabalhadores dos EUA a organizar e estabelecer sindicatos antes e durante sua presidência. Foi nomeado membro honorário de vários sindicatos. Em sua resposta aos sindicatos de Nova York afirmou “vocês entenderam melhor que ninguém que a luta para terminar com a escravidão é a luta para libertar o mundo do trabalho, para libertar todos os trabalhadores. A libertação dos escravos no Sul é parte da mesma luta pela libertação dos trabalhadores no Norte”. E, durante a campanha eleitoral, o presidente Lincoln promoveu a postura contra a escravidão afirmando explicitamente que a libertação dos escravos permitiria aos trabalhadores exigir os salários que lhes permitissem viver decentemente e com dignidade, ajudando com isso a aumentar os salários de todos os trabalhadores, tanto negros como brancos.

Marx, e também Engels, escreveram com entusiasmo sobre a campanha eleitoral de Lincoln, em um momento em que ambos estavam preparando a Primeira Internacional do Movimento Operário. Em um momento das sessões, Marx e Engels propuseram à Internacional que enviasse uma carta ao presidente Lincoln felicitando-o por sua atitude e postura. Na carta, a Primeira Internacional felicitava o povo dos EUA e seu presidente por, ao terminar com a escravidão, haver favorecido a liberação de toda a classe trabalhadora, não só estadunidense, mas também mundial.

O presidente Lincoln respondeu, agradecendo a nota e dizendo que valorizava o apoio dos trabalhadores do mundo a suas políticas, em um tom cordial, que certamente criou grande alarme entre os establishments econômicos, financeiros e políticos de ambos os lados do Atlântico. Estava claro, a nível internacional que, como afirmou mais tarde o dirigente socialista estadunidense Eugene Victor Debs, em sua própria campanha eleitoral, “Lincoln havia sido um revolucionário e que, por paradoxal que pudesse parecer, o Partido Republicando havia tido, em suas origens, uma tonalidade vermelha”.

A revolução democrática que Lincoln começou e que nunca se desenvolveu
Não é preciso dizer que nenhum destes dados aparece no filme Lincoln, nem são amplamente conhecidos nos EUA. Mas, como bem afirmam John Nichols e Robin Blackburn (outro autor que escreveu extensamente sobre Lincoln e Marx), para entender Lincoln tem que entender o período e o contexto nos quais ele viveu. Lincoln não era um marxista (termo sobreutilizado na literatura historiográfica e que o próprio Marx denunciou) e não era sua intenção eliminar o capitalismo, mas corrigir o enorme desequilíbrio existente nele, entre o capital e o trabalho. Mas, não há dúvida de que foi altamente influenciado por Marx e outros pensadores socialistas, com os quais compartilhou seus desejos imediatos, claramente simpatizando com eles, levando sua postura a altos níveis de radicalismo em seu compromisso democrático. É uma tergiversação histórica ignorar tais fatos, como faz o filme Lincoln.

Não resta dúvida que Lincoln foi uma personalidade complexa, com muitos altos e baixos. Mas as simpatias estão escritas e bem definidas em seus discursos. E mais, os intensos debates que aconteciam nas esquerdas europeias se reproduziam também nos círculos progressistas dos EUA. Na realidade, a maior influência sobre Lincoln foi a dos socialistas utópicos alemães, muitos dos quais se refugiaram em Ilinóis fugindo da repressão europeia.

O comunalismo que caracterizou tais socialistas influenciou a concepção democrática de Lincoln, interpretando democracia como a governança das instituições políticas por parte do povo, no qual as classes populares eram a maioria. Sua famosa Expressão (que se converteu no esplêndido slogan democrático mais conhecido no mundo – Democracy for the people, of the people and by the people - claramente afirma a impossibilidade de ter uma democracia do povo e para o povo sem que seja realizada e levada a cabo pelo próprio povo. Daí vem a libertação dos escravos e do mundo do trabalho como elementos essenciais de tal democratização. Seu conceito de igualdade levava inevitavelmente a um conflito com o domínio de tais instituições políticas pelo capital. E a realidade existente hoje nos EUA e que detalho em meu artigo “O que não se disse nos meios de comunicação sobre as eleições nos EUA” (Público, 13.11.12)é uma prova disso. Hoje a Corporate Class controla as instituições políticas do país.

Últimas observações e um pedido
Repito que nenhuma destas realidades aparece no filme. Spielberg não é, afinal, nenhum Pontecorvo e o clima intelectual estadunidense ainda está estancado na Guerra Fria que lhe empobrece intelectualmente. “Socialismo” continua sendo uma palavra mal vista nos círculos do establishment cultural daquele país. E, na terra de Lincoln, aquele projeto democrático que ele sonhou nunca se realizou devido a enorme influência do poder do capital sobre as instituições democráticas, influência que diminuiu enormemente a expressão democrática naquele país. E o paradoxo brutal da historia é que o Partido Republicano se tenha convertido no instrumento político mais agressivo hoje existente a serviço do capital.

Certamente, agradeceria que todas as pessoas que achem este artigo interessante o distribuam amplamente, incluindo, em sua distribuição os críticos de cinema, que em sua promoção do filme, seguramente não dirão nada do outro Lincoln desconhecido em seu próprio país (e em muitos outros). Um dos fundadores do movimento revolucionário democrático nem sequer é reconhecido como tal. Sua emancipação dos escravos é uma grande vitória que deve ser celebrada. Mas Lincoln foi muito além. E disto nem se fala.

*Vicenç Navarro (Barcelona, 1937) é cientista social. Foi professor catedrático da Universidade de Barcelona e hoje dá aulas nas universidades Pompeu Fabra e Johns Hopkins. Por sua luta contra o franquismo, viveu anos exilado na Suécia. Este artigo foi publicado em Domínio Público.

Traduzido e replicado por: Carta Maior

Nota do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto sobre da Ocupação Novo Pinheirinho-DF


                  O esqueleto abandonado pelo proprietário há quase 20 anos na entrada da cidade de Taguatinga (DF), e que vinha sendo ocupado há muitos anos por famílias sem qualquer assistência, tornou-se, há 17 dias, o Novo Pinheirinho. O MTST trouxe à tona a falta de ação do governo em relação ao prédio, bem como algumas debilidades da política habitacional do DF.

                  Contra as expectativas do próprio governo e, sobretudo, de quem desaprova a luta popular, conquistamos no TJDF a suspensão da liminar de reintegração de posse. Reconhecemos e exaltamos publicamente a brilhante atuação da Assessoria Jurídica Universitária e Popular (AJUP)- Roberto Lyra Filho. O acampamento estar de pé tem parte fundamental destes companheiros e companheiras.

                  Corretamente, o TJDFT reconheceu que a empresa Jarjour não comprovou estar realizando obras no local, não exerce posse sobre o imóvel, e que o movimento não está causando prejuízo a ninguém com a ocupação. Afirmou-se, ainda, a importância de buscar-se uma solução negociada que tenha em vista a necessidade de moradia das famílias, para que se dê efetividade aos direitos sociais previstos na nossa Constituição.  O Judiciário dá, assim, esperança a quem acredita no cumprimento da nossa constituição no que se refere às demandas populares pelo direito à moradia e à garantia da função social da propriedade.

                  A ocupação deixa evidente que aquelas famílias não veem alternativa senão dormir em barracos para mostrar ao governo que conquistar o direito à moradia é diferente de “conquistar o direito de esperar na fila”! O GDF ainda não se manifestou publicamente, mas já reconheceu que se equivocou ao divulgar que o MTST ainda não havia entregado todos os documentos para se cadastrar no único programa habitacional existente. Tal cadastro será efetivado ainda este mês. E será estabelecida uma política de atenção às famílias enquanto essas esperam a casa definitiva. Todas conquistas do Novo Pinheirinho em 2012, em Ceilândia-Df.

                  Esta semana, no dia 22, completa um ano da desocupação violenta realizada no Pinheirinho, em São Paulo. Naquela época várias lideranças petistas se levantaram para denunciar a ação violenta do governo tucano. Hoje, não fosse o desempenho excepcional de nossos advogados que suspenderam a liminar, estaríamos vendo as mesmas cenas de injustiça e violência que vimos um ano atrás, no Pinheirinho. Cobramos do governo petista do DF uma posição diferente daquela tomada pelo governo tucano de SP! Cobramos uma solução em favor dos trabalhadores e trabalhadoras ao invés de mais favorecimento a empresários especuladores!

                  O MTST continua ocupando o prédio, que agora tem vida e cumpre (pela primeira vez em sua história) função social. Continuamos na luta para garantir a efetivação de uma política de habitação digna no DF, em especial para corrigir as distorções do programa Morar Bem - onde pessoas com direito a casas têm ofertas absurdas e são obrigadas a negar e voltar para o fim da lista. O movimento social tem legitimidade reconhecida para apontar falhas e organizar as pessoas na luta por seus direitos, cabe ao governo reconhecer e garantir o direito à moradia. O movimento continua aberto à negociação esperando que os governos não permitam outro Pinheirinho, no DF ou em qualquer lugar do Brasil e que garantam o direito das famílias!

Conquistamos na justiça o direito de ficar, conquistaremos na luta o direito de morar!

MTST! A Luta é Pra Valer!

Carta Aberta: POR QUE OCUPAMOS O INSTITUTO LULA


Chegamos a uma situação limite.

Somos 68 famílias que, depois de anos e anos de luta, fomos assentadas num terreno de 104 hectares localizado entre os municípios de Americana e Cosmópolis. Este terreno pertenceu à família Abdalla, ricos empresários que perderam o a área durante a ditadura militar por dívidas trabalhistas.
Em 2006, o presidente Lula e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) nos instalaram no Sítio Boa Vista. Desde então, para a consolidação deste assentamento, depositamos tudo o que tínhamos: nosso trabalho e nossa vida na produção de alimentos saudáveis, sem o uso de agrotóxicos. Passamos por inúmeras dificuldades para produzir. Mesmo assim, passo a passo, conseguimos estabelecer parcerias com mais de 40 entidades e escolas através do Programa Doação Simultânea. E, hoje, temos orgulho de dizer que somos uma comunidade que fornece mais de 300 toneladas de alimentos para a região metropolitana de Campinas.
Após consolidarmos nossas vidas nesta terra com o suor de anos de trabalho e dedicação, recebemos em maio de 2012 a notícia de que a família Abdalla, aliando-se à Usina Ester, havia recuperado as terras na justiça e ganho o seu direito de posse. A justiça federal, então, emitiu um aviso ao INCRA de que deveríamos ser retirados em prazo determinado, caso contrário, haveria a reintegração de posse do terreno.
O INCRA moveu vários recursos em vão. Realizamos audiências com os representantes do órgão, que afirmavam que não sairíamos do assentamento e que, se fosse preciso, seria assinado o decreto de desapropriação por interesse social. Fizemos reunião com representantes do governo federal; e estes também garantiram que o problema seria resolvido, sem que precisássemos deixar nossas casas. No entanto, o tempo passou e nada mudou. Ao contrário, para a nossa aflição, aproxima-se a data em que assistiremos à destruição do esforço de toda uma vida: nossas casas, nossas plantações, nossos sonhos.
Sabemos que todas as possibilidades jurídicas já foram esgotadas e que o destino de nossas famílias depende, isto sim, da vontade política de quem pode decidir. Também sabemos que não nos resta outra alternativa senão um grito de apelo.
Lembramos que há exatamente um ano, em um quadro bastante semelhante, 1600 famílias foram brutalmente despejadas da área do Pinheirinho. Um representante político como Lula, que agora tem a honra de batizar uma instituição que zela pelo “exercício pleno da democracia e a inclusão social”, não pode permitir que uma situação dessas se repita.
Lula foi o Presidente da República que, em 2006, assinou a concessão do terreno do Assentamento Milton Santos para fins de reforma agrária. Todo processo ocorreu com o seu conhecimento e do órgão do governo federal responsável pelo assunto, o Incra.
Confiamos que o peso de sua figura política seja capaz de interceder em favor de nós, assentados, e estabelecer um diálogo mais direto com a presidente Dilma Rousseff, para que esta se disponha a nos receber pessoalmente em uma audiência e assine o decreto de desapropriação por interesse social.
Assentadas e assentados do Milton Santos

Os impasses das esquerdas brasileiras diante da luta do Assentamento Milton Santos


A urgente solidariedade ativa aos lutadores e lutadoras do Assentamento Milton Santos é uma valiosa oportunidade para que todos os que alardeamos lutar por um mundo melhor explicitemos, na prática, o que queremos de nós mesmos.
por Lúcio Flávio de Almeida
24 de janeiro de 2013

O assentamento Milton Santos é resultado de uma luta legítima do ponto de vista de todos os  que aspiram por uma sociedade livre do jugo do capital; onde o direito à vida da maioria dos que nada têm exceto sua própria força de trabalho não seja cotidianamente atropelado pelo processo de acumulação capitalista, especialmente em tempos de desenfreada  “financeirização”; um pais em que os agronegocistas não sejam considerados heróis pelo simples fato de que, ao exportarem commodities com generosa ajuda estatal, mesmo com imensos custos socioambientais, proporcionam ao Estado divisas com as quais este assegura igualmente generosa remuneração ao capital portador de juros, incluindo-se aí, uma proporção extraordinária de capital fictício.

Neste sentido, a luta do assentamento Milton Santos é legítima para os que querem transformar o mundo. E também se trata de uma legitimidade muito mais ampla, que engloba todos os que preferem um país mais justo, mais decente, menos desigual; um país onde espertalhões engravatados não ganhem todas; um Brasil sem comandantes policiais que ordenem chacinas sistemáticas e cheguem ao cúmulo de determinar oficialmente que o foco da repressão incida sobre jovens negros e pardos, como acabou de ocorrer em um bairro burguês e de alta classe média (isso que a grande imprensa adora chamar de “nobre”) em Campinas, não muito longe do Milton Santos.

Afinal, trata-se de um assentamento constituído há mais de meia década, com a participação do próprio governo federal; de um assentamento testado e aprovado, que produz – e muito bem – toneladas de alimentos sem agrotóxicos, ao contrário das grandes corporações nacionais e transnacionais que envenenam diariamente tudo o que ingerimos. O assentamento Milton Santos sinaliza a possibilidade de um mundo melhor, no qual trabalhadores e trabalhadoras vão além de políticas assistenciais e procuram intervir na produção de seu próprio futuro. Neste sentido, a luta do Milton Santos merece a atenção dos antineoliberais, dos democratas, dos ambientalistas.

Faz-se aqui a mesma pergunta tantas vezes formulada em relação a outras lutas sociais: por que tanta intransigência – ao invés de estímulo – por parte de um governo que se propõe a erradicar a pobreza, mas, a poucos dias de um possível massacre que, caso ocorra, será carimbado por brilhantes justificativas jurídicas, não dá sinais de que fará o que pode fazer para resolver a situação: desapropriar a área para fins de interesse social?

As esquerdas brasileiras, especialmente seu subconjunto anticapitalista, apresentam imensas dificuldades para se unificarem em questões práticas. Permanecem incapazes de responder a um grande potencial de novas lutas proletárias, subproletárias e de baixa classe média – para nos restringirmos a estes segmentos das lutas populares.  Desta forma, contraditoriamente, dão sua parcela de contribuição para que somente sobrevivam as  práticas coletivas dos dominados que estejam sob a tutela mais ou menos explícita do Estado ou mesmo de certos governos. Depois fica fácil teorizar que as lutas que predominam são marcadas pelo corporativismo.

No momento em que escrevo estas linhas, mulheres, homens e crianças do Assentamento Milton Santos, que já ocuparam o prédio do INCRA, também ocupam o Instituto Lula. Vestem-se pobremente, não portam armas, não depredam, não perdem a disciplina e têm plena consciência da imensa complicação em que foram metidos por meio de um cipoal de decisões que, embora pareçam absurdas, emanam todas do mesmo Estado brasileiro.  Depois de uma entrevista em que o presidente do Instituo Lula foi, no mínimo, extremamente grosseiro e anticidadão, os ocupantes fizeram uma belíssima assembleia, ainda mais bela porque, apesar da análise acurada, preferiram nada concluir sem consultar os assentados e assentadas que estavam no prédio do Incra ou no próprio Milton Santos.  Diante de pessoas que procuram viver com dignidade e, portanto, não abrem mão de conduzir seus próprios destinos em condições tão sombrias, nada opinei. Apenas manifestei rapidamente minha solidariedade.

Muitos de nós não concordamos com ambas as ocupações, especialmente a última. Todavia, é inegável que esta foi o único modo de conseguirem mais visibilidade para uma trágica disjuntiva: a capitulação em uma luta que não escolheram ou um confronto terrivelmente desigual que pode terminar em martírio. Ora, esta situação nos afeta profundamente, até porque nosso compromisso fundamental é com o povo pobre que luta. Eis um ótimo momento para que o ex-presidente Lula, um dos mais importantes líderes políticos da atualidade, supere seu desconforto e atenda a quem o procura em uma sinuca de bico que ele mesmo ajudou a criar. Afinal, como o próprio Lula afirma, e com razão, ninguém entende de povo melhor do que ele.

A urgente solidariedade ativa aos lutadores e lutadoras do Assentamento Milton Santos é uma valiosa oportunidade para que todos os que alardeamos lutar por um mundo melhor explicitemos, na prática, o que queremos de nós mesmos.

Ciclos de lutas não duram para sempre e o que está em jogo é incalculável do ponto de vista das potencialidades civilizatórias de cuja escassez até a intelectualidade conservadora se queixa.

É pegar ou largar. Ou o possível vira impossível.

India: A esto lo llamamos progreso


Arundhati Roy
Guernica

No sé hasta dónde retroceder en la historia para empezar, así que voy a poner el hito en el pasado reciente. Voy a empezar en los primeros años noventa, poco después de que el capitalismo ganase su guerra contra el comunismo soviético en las montañas inhóspitas de Afganistán. El gobierno de la India, que fue durante muchos años uno de los líderes del movimiento de los no alineados, de repente se convirtió en un país completamente alineado y comenzó a autodenominarse el aliado natural de los EEUU e Israel, y abrió sus mercados protegidos al capital global. La mayoría de la gente habla de las guerras medioambientales pero en el mundo real es muy difícil separar esas guerras de todo lo demás: la guerra contra el terrorismo, por ejemplo; el uranio empobrecido, los misiles, el hecho de que fuese el complejo militar-industrial quien verdaderamente sacó a los EE.UU. de la Gran Depresión y que, desde entonces, las economías de Estados Unidos, de muchos países europeos y ciertamente la de Israel, han tenido intereses en la fabricación de armas. ¿De qué sirven las armas si no se van a utilizar en las guerras? Las armas son absolutamente esenciales, no solo para conseguir el petróleo u otros recursos naturales, sino para el complejo militar-industrial en sí mismo pues para seguir adelante necesitan armas.

Hoy, mientras hablamos, los EEUU, y quizás China e India, están inmersos en una guerra por el control de los recursos de África. Miles de soldados estadounidenses así como escuadrones de la muerte están siendo enviados a África. El presidente "Yes We Can" ha extendido la guerra de Afganistán a Pakistán. Allí atacan con aviones no tripulados matando niños como si fuera la cosa más normal.

En la década de 1990, cuando la India abrió sus mercados, cuando desmanteló todas las leyes que protegían a los trabajadores, cuando se privatizaron los recursos naturales, cuando ese proceso se puso en marcha, el gobierno de la India abrió dos cerrojos: uno que cerraba los mercados, y otro que bloqueaba una antigua mezquita del siglo XIV, un espacio disputado por hindúes y musulmanes. Para los hindúes era el lugar donde nació Ram, y los musulmanes, por supuesto, lo utilizan como mezquita. Al abrir ese cerrojo, la India puso en marcha una especie de conflicto entre las comunidades mayoritaria y minoritaria, una forma de dividir a la gente constantemente. Encontrar maneras de dividir a la gente es la práctica principal de cualquiera que esté en el poder.

La apertura de estos dos cerrojos desató dos tipos de totalitarismos en la India: uno fue el totalitarismo económico y el otro era el fundamentalismo hindú. Estos procesos crearon lo que el gobierno denomina “terrorismo”. Había terroristas islamistas y había lo que hoy el gobierno llama "maoístas", que son cualquier persona que se resiste al proyecto de la civilización, del progreso, del desarrollo. Alguien que se resiste a la desposesión de sus tierras o a la destrucción de los ríos y los bosques, es hoy un maoísta. “Maoístas” son el extremo más militante de un ancho de banda de los movimientos de resistencia que tiene a los “Gandhistas” en el otro extremo del espectro. El tipo de estrategia que la gente adopta para resistir la embestida del capital global es muy a menudo no una opción ideológica sino una elección táctica, dependiendo del paisaje en el que se libran las guerras.

Desde 1947, desde que se convirtió en una república soberana, la India viene desplegando su ejército en contra de lo que llama su propio pueblo. Ahora, gradualmente, aquellos Estados donde desplegaron tropas son estados en los que la gente lucha por su libre determinación. Son estados a los que el Estado descolonizado de la India colonizó de inmediato. Actualmente esas tropas están defendiendo los derechos del gobierno para construir grandes embalses y proyectos de energía, para llevar a cabo los procesos de privatización. En los últimos cincuenta años, más de treinta millones de personas han sido desplazadas solo por los grandes embalses en la India. Por supuesto, la mayoría de ellos son indígenas o personas que viven de la tierra.

El resultado de veinte años de este tipo de libre-mercado y del fantasma del terrorismo es el vaciamiento de la democracia. Veo un montón de gente que usa el término democracia como una buena palabra, pero en realidad, si lo pensamos, la democracia hoy en día no es lo que era. Hubo un tiempo en que el gobierno estadounidense derribaba democracias en América Latina y en cualquier lugar. Hoy en día desata guerras para implantar la democracia. Se han llevado la democracia al taller y la están vaciando.

En la India, cada una de las Instituciones ya sean los tribunales o el Parlamento, o la prensa, han sido vaciadas y puestas al servicio del libre mercado. Hay rituales vacíos para ocultar lo que realmente sucede, y es que la India sigue militarizándose, sigue convirtiéndose en un estado policial. En los últimos veinte años, después de haber abrazado al libre mercado, doscientos cincuenta mil agricultores se han suicidado debido a que fueron encadenados a la deuda. Esto nunca ha sucedido antes en la historia humana. Sin embargo, es obvio que cuando el “establishment” tiene que elegir entre agricultores suicidas y terroristas suicidas, usted ya sabe por cuáles van a apostar. No les importa esa estadística ya que le ayudan; lo lamentan, hacen algo de ruido, pero siguen con lo que están haciendo.

Hoy en día la India tiene más habitantes que todos los países más pobres de África juntos. El 80 por ciento de su población vive con menos de veinte rupias al día, lo que es menos de cincuenta centavos al día (menos de cuarenta céntimos de euro). Ese es el contexto en el que los movimientos de resistencia están operando.

Por supuesto la India tiene poder mediático -no conozco a ningún otro país con tantos nuevos canales de noticias, todos ellos financiados o propiedad directa de las empresas, incluyendo las mineras y las de infraestructuras. La gran mayoría de las noticias están financiadas por publicidad corporativa, así que pueden imaginar lo que pasa con eso. El primer ministro de la mayor democracia del mundo, Manmohan Singh, que fue más o menos colocado por el FMI, no ha ganado unas elecciones en su vida. Se presentó una vez y las perdió, pero a continuación le pusieron donde está. Él fue quien siendo ministro de finanzas desmanteló todas las leyes y abrió las puertas de la India al capital mundial.

En una ocasión yo estaba en una reunión con los trabajadores del hierro, y Manmohan Singh, entonces primer ministro, había sido el líder de la oposición en el Parlamento. Un poeta Hindi leyó un poema titulado "¿Qué hace Manmohan Singh estos días?" cuyas primeras líneas eran: "¿Qué hace Manmohan Singh estos días? ¿Qué hace el veneno una vez dentro del torrente sanguíneo?". Ellos sabían que lo que tuviera que hacer ya estaba hecho y ahora era solo cuestión de que siguiera su curso.

En 2005, durante el primer mandato del actual gobierno indio, éste firmó cientos de “Memorandos de Entendimiento” (MOUs) con las empresas mineras, con las empresas de infraestructuras y otras, para la explotación de una gran porción de las tierras boscosas de la India central. Se estima que en la India hay unos cien millones de indígenas y si usted mira un mapa de la India, los minerales, los bosques y la población indígena están todos apilados, una capa sobre otra. Muchos de estos “Memorandos de Entendimiento” se firmaron con estas empresas mineras en el 2005. En ese momento, en el estado de Chhattisgarh, que es donde esta gran guerra civil se está desarrollando ahora, el gobierno reclutó a una milicia tribal, financiada por estas empresas, básicamente para que atravesaran la selva limpiándola de gente con el fin de ejecutar los “Memorandos de Entendimiento”. Los medios de comunicación comenzaron a llamar a esta franja de bosque el "Corredor maoísta." Algunos de nosotros la llamábamos el "Corredor MOUista". Por entonces anunciaron una guerra llamada "Operation Green Hunt". Doscientos mil paramilitares empezaron a entrar en los bosques, junto con la milicia tribal, para limpiarla de lo que el gobierno llamaba Maoístas.

El movimiento maoísta, con distintas caras, ha existido en la India desde 1967, año en que se produjo el primer levantamiento. Sucedió en una aldea de Bengala Occidental llamada Naxalbari, por lo que los maoístas son a veces llamados naxalitas. Por supuesto que es un partido clandestino, prohibido. Ahora cuenta con un Ejército Guerrillero Popular de Liberación. Miles de personas han muerto en este conflicto. Hoy en día hay miles de personas en la cárcel, y todos ellos son llamados maoístas, aunque realmente no todos lo son porque, como ya he dicho, hoy en día a quien resiste se le conoce como terrorista. Han hecho equivalentes Pobreza y Terrorismo. En los estados del noreste tenemos leyes como la Ley de Poderes Especiales de las Fuerzas Armadas que permite a los soldados matar ante una sospecha. En toda la India tenemos la Ley de Prevención de Actividades Ilegales que básicamente considera delito pensar en contra del gobierno, lo que puede penarse con hasta siete años de cárcel.

Este es el ambiente que se estaba creando, y los medios de comunicación participaban en esta orgía de "maoístas-terroristas." A estos se les confundía con el Lashkar-e- Taiba*, por lo que se les podía ver en la televisión con pasamontañas y AK-47, y la clase media literalmente clamaba venganza. Por entonces yo había escrito un par de artículos sobre el asunto y cuando mencioné a la minería los presentadores de televisión me miraron como si estuviera loca. ¿Cuál era la relación entre guerrilleros “malos” y corporaciones mineras “buenas”? En mi libro “Notas de campo sobre la democracia” hay una parte que trata de cómo el Tribunal Supremo de la India dictó una sentencia dando por imposible acusar a una corporación de mala praxis.

En pocas palabras, eso dice.

Si nos fijamos en la historia de la lucha por la tierra en la India, lo que es realmente triste es que después de que la India se independizara la reforma agraria fue una de las tareas más importantes en la agenda del nuevo gobierno. Esta fue, por supuesto, pervertida por los políticos, que eran gente de clase alta, propietarios de tierras. Ellos introdujeron tantas salvedades en el ordenamiento jurídico que no hubo redistribución alguna. Por ello, en la década de 1970, poco después del comienzo del movimiento naxalita, cuando los primeros levantamientos, lo que se buscaba era la redistribución de la tierra. El movimiento decía “la tierra para quien la trabaja”. Fue aplastado; enviaron al ejército. El gobierno de la India, que se dice democrático, nunca duda en llamar al ejército. Hoy en día la gente ha olvidado por completo la idea de la redistribución. Ahora la gente está luchando solo para aferrarse a lo poco que tienen. A eso lo llamamos "progreso." El ministro del Interior, según se afirma, quiere al 70 por ciento de la India viviendo en las ciudades, lo que significa que quiere entre 500 y 600 millones de personas desplazándose. ¿Cómo hacer que eso suceda si no es convirtiéndose en un estado militar? ¿Cómo hacer eso si no es construyendo grandes embalses y grandes proyectos térmicos y con energía nuclear?

En muchos sentidos, hemos retrocedido. Hasta las políticas más radicales las ponen en práctica personas que tienen el privilegio de poseer la tierra. Hay millones y millones de personas que no tienen tierras, que son personas asalariadas, mal pagadas, viviendo en los márgenes de gigantescas metrópolis que componen la India de hoy. La política sobre la tierra es radical en un sentido, pero en otro ha dejado fuera a los más pobres, porque están fuera de la ecuación. No hablamos ya más de justicia. Ninguno de nosotros lo hace; sólo hablamos de derechos humanos o de supervivencia. No hablamos de redistribución. En Estados Unidos 400 personas poseen más riqueza que la mitad de la población estadounidense. No deberíamos estar diciendo que los ricos paguen impuestos, sino que deberíamos decir “tomemos su dinero y redistribuyámoslo, tomemos sus bienes y redistribuyámoslos”.

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Hoy en día, una de las mayores batallas que se libran en la India es por la extracción de bauxita, la principal mena del aluminio, que es esencial para el complejo militar-industrial. Hay bauxita en las montañas de Orissa y Chhattisgarh por valor de cuatro billones de dólares. Son hermosas las montañas de bauxita; son montañas de cumbres planas. La bauxita es una roca porosa y cuando llueve las montañas absorben el agua, son como tanques de agua; dejan que el agua salga por los dedos de sus pies y que riegue las llanuras. Las compañías mineras, que han comprado la bauxita por un pequeño “royalty” al gobierno de la India, ya lo han vendido en el mercado de futuros. Para la población local, la bauxita en la montaña es la fuente de su vida y su futuro, su religión y todo. Para la empresa de aluminio, la montaña es sólo una instalación de almacenamiento barato. Ya está vendida, de manera que la bauxita ha de salir sea pacífica o violentamente.

El gobierno indio, la mayor democracia del mundo, tiene la intención de sacar al ejército para que luche en la India central contra los pueblos más pobres del mundo.

Mucha de la violencia y la represión del gobierno indio la subcontrata a grupos mafiosos; no siempre actúa como Estado. A menudo, los académicos o los periodistas o estos presentadores idiotas de los estudios de televisión iniciarán un debate basado en la pregunta “¿es la violencia moral o inmoral?” (envíe un sms con su respuesta, ya).

Por supuesto, la gente no necesariamente funciona así. Usted puede ser maoísta en el bosque y un Gandhi en la calle. Puede cambiar de identidad dependiendo de lo que más le convenga tácticamente; no es como si tuviésemos que jurar ser esto o lo otro. Algunas personas lo hacen, otras no. Creo que lo que sucede en la India es que hay algo falso en este debate porque está impregnado de una especie de falsa moralidad. Después de todo, si la gente de la clase media apoyara esa lucha -lo que es un oxímoron, no lo harán-, entonces entendería que dijeran que todos deberíamos unirnos y hacer una huelga de hambre. Pero si usted va a alejarse de ese pueblo que ha sido rodeado por un centenar de policías y lo están quemando, entonces es inmoral que ensaye una conferencia para decirles cómo deberían protegerse. Muy a menudo, cuando vemos lo que se hace con las personas, sentimos ira y humillación si no hay respuesta. La gente me pregunta por qué escribo y respondo que es para no ser humillada. Yo no escribo para nada más que para no ser humillada. Cada vez que escribo me digo que no voy a hacerlo más, pero es como que no puedo contenerlo dentro de mi cuerpo; escribo y es un alivio.

Como escritora, si sabes algo y lo silencias, es como morir. Entre las diferentes opciones del miedo, sigo prefiriendo escribir a no escribir.

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Durante muchos años he estado escribiendo y siguiendo los movimientos de resistencia y de la nueva política económica. Siempre me ha parecido que las posibilidades de llegar a la desesperación son mucho mayores en los hogares de la clase media que en el terreno donde la gente está luchando. La clase media puede elegir entre la esperanza y la desesperación igual que pueden elegir entre champú para cabello seco y para cabello graso; tienen la posibilidad de elegir entre hacer política y hacer diseño (de interiores). Las personas en lucha no tienen elección; están luchando y se concentran y saben lo que están haciendo. Polemizan mucho entre sí, por supuesto, pero eso está bien.

Cuando aterricé en Nueva York, una de las primeras cosas que hice fue ir a la ocupación de Wall Street, porque quería ver quiénes eran, de qué se trataba y cómo conectan con las cosas por las que hemos estado luchando y escribiendo. Independientemente de lo que son las diversas tendencias y del hecho de que el movimiento no tiene reivindicaciones y que no tiene líderes identificables, es evidente que hay una conexión entre lo que está pasando en el movimiento Occupy y lo que está sucediendo en la India. Esa conexión es la de la exclusión. Estas son las personas que están excluidas. Claramente no son las 400 familias que poseen más riqueza que la mitad de los estadounidenses. No son los cientos de personas en la India que son dueños del 25 por ciento del PIB de la India.

Mientras muchos de nosotros creemos en la revolución y en que el sistema debe ser derribado, ahora mismo, lo menos que se puede pedir para empezar es poner un límite a todo esto. Soy una cappist y una liddite**. Tenemos que decir un par de cosas: una es que ningún individuo puede tener una cantidad ilimitada de riqueza. Ninguna corporación puede tener una cantidad ilimitada de riqueza. Este tipo de participaciones cruzadas en la propiedad de las empresas realmente debe acabar.

En la India, Tatas es la mayor multinacional. Son dueños de las minas de hierro, de las plantas de fabricación del acero, de la sal yodada y son los proveedores de televisión. Los que fabrican camiones, subvencionan activistas, lo hacen todo. Hay una empresa de hierro y aluminio llamada Jindal. Tienen minas de hierro, plantas siderúrgicas. El director ejecutivo (en el original, CEO) es miembro del Parlamento. También creó la Fundación de la Bandera Nacional, porque obtuvo el derecho a enarbolar la bandera nacional en su casa. Dirigen una escuela de derecho internacional a las afueras de Delhi, que es como un campus de Stanford, en medio de la miseria más increíble que podamos imaginar. Tienen profesorado que llega de todas partes del mundo cobrando salarios elevados. Ellos financian y promueven a artistas de vanguardia que trabajan con acero inoxidable. Recientemente hicieron un taller de protesta para el cual llegaron en avión activistas a este campus increíblemente elegante donde hicieron poesía de protesta y consignas de protesta. Ellos son dueños de todo, son propietarios de la resistencia, de las minas, del Parlamento, de la bandera, de los periódicos. No dejan que nada se les escape. Estas son algunas cosas simples que tienen que acabar. Berlusconi controla indirectamente el 90 por ciento de los medios de comunicación en Italia, así que ¿qué más da que no sea el Presidente?

Es una especie de locura que también podría tener algunas soluciones simples. Por ejemplo, tal vez los niños no deban heredar la riqueza que sus padres amasan. Todos podemos encontrar algunas soluciones simples como ésta, que nos llevarían a direcciones correctas.

Notas de la traductora:

* Lashkar-e-Taiba: literalmente, “Ejército de los Puros”, movimiento radical islamista originario de Cachemira. Surgido en Afganistán en 1990. (Fuente Wikipedia)

** “A cappist and a liddite”, en ingles en el original, adjetivan dos términos “cap” y “lid” que tienen el sentido de poner límite (cap) y poner tapa, techo (lid), a lo que está sucediendo. Lo que no deja claro en el texto es el contenido exacto de su autodefinición.

Este texto es la transcripción del discurso pronunciado en la conferencia “La Tierra en Riesgo”, sobre los malos usos de la democracia y el poder revolucionario de la exclusión.

Traducido para el CEPRID (www.nodo50.org/ceprid) por Mar Samos

Fonte: Nodo50

PM em Campinas-SP é acusada de racismo


Como sempre, o crime ronda o Estado brasileiro. No entanto, como um Estado de classe, esta instituição tem livre-passe para a criminalidade.

por Ricardo Brandt

Uma ordem assinada por um comandante da Polícia Militar em Campinas (SP) determinando a abordagem de suspeitos de "cor parda e negra", acusados de praticarem assaltos em residências em um bairro nobre da cidade, provocou a reação de entidades de direitos humanos, que denunciaram a PM por discriminação. "A ordem leva-nos a entender que, se os policiais cruzarem com suspeitos brancos, não devem desconfiar deles. Se foram pardos e negros, abordem-nos imediatamente", afirma o diretor presidente da Educafro, Frei David Santos.

O representante da entidade entregou na manhã desta quarta-feira para o secretário-adjunto de Segurança Pública, Antônio Ponte, uma carta em que cobra explicações sobre a ordem emitida pela PM em Campinas. Pede também dados estatísticos sobre abordagens, com ou sem mortes, realizadas pelo 8º Batalhão de Campinas - responsável pela área - para verificar se há prática de racismo nas operações locais. A carta é endereçada ao governador, Geraldo Alckmin, e ao secretário de Segurança Pública, Fernando Grella.
No documento, Frei David solicitou ainda a divulgação de dados étnicos das vítimas de abordagens policiais registradas como "resistência seguida de morte" no Estado e nas operações de confronto com membros da facção Primeiro Comando da Capital (PCC), com base na Lei da Transparência. "É assustador saber que ainda pode existir racismo dentro da polícia."
Polêmica
O documento que gerou a polêmica foi uma ordem de serviço assinada pelo capitão Ubiratan Beneducci, comandante da 2ª Companhia do 8º Batalhão da PM, em Campinas. Na ordem, de uma folha, assinada dia 21 de dezembro do ano passado, o capitão determina aos policiais que fazem o patrulhamento em dois bairros da região do Taquaral que reforcem as operações em um quadrilátero de ruas onde um grupo de criminosos, com características específicas descritas por moradores, estaria agindo.
Segundo a ordem, os PMs devem atuar com rigor: "focando abordagens a transeuntes e em veículos em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra com idade aparentemente de 18 a 25 anos, os quais sempre estão em grupo de 3 a 5 indivíduos na prática de roubo a residência naquela localidade". "Infelizmente na elaboração do documento, o texto poderia ser mais contextualizado, deixando claro que aquelas características foram dadas por representantes da comunidade, que comunicaram a PM da ocorrência de crimes por um grupo com tais elementos e solicitando reforço policial", explicou o capitão Éder Araújo, porta-voz da PM.
Segundo ele, a ordem expedida pelo capitão de Campinas decorre de um ofício enviado para o comando local por moradores de dois bairros da região do Taquaral. Foram eles, vítimas dos crimes, que informaram as ações aos sábados de um grupo de três a cinco pessoas, com idades entre 18 e 25 anos, de cor parda e negra, informou a PM. "Não se pode falar em discriminação ou em atitude racista. O capitão Beneducci, que é pardo, emitiu essa ordem com base em indicadores concretos, ele apenas expôs as características físicas dos suspeitos", afirma Araújo.
Para o representante do Conselho de Defesa da Pessoa Humana do Estado, Dojival Vieira dos Santos, a ordem explicita a discriminação por parte da PM. "É um comandante da Polícia Militar do Estado assumindo uma postura discriminatória e manifestando explicitamente esses atos nas ações de abordagens." Na carta encaminhada pela Educafro ao governador, a entidade afirma que compreende "que a orientação não é governamental", mas que o governo "pode combater com determinação e direito esta medida aplicada por este servidor policial, mal formado e não preparado para suas funções de comando". "Queremos que a polícia se liberte da imagem do cidadão negro como sendo bandido", completa o documento.
Fonte:  Estadão

Só pensamos em ti quando pensamos por ti


Javier Couso
23 de janeiro de 2013

Antes de ayer era Afganistán, ayer Libia, hoy Malí. Hace falta, nos dicen. Son terroristas, nos advierten. Es necesario, reiteran. Nuestras tropas, nuestras bombas, nuestras sanciones, nuestras torturas, nuestros asesinatos... Son por la democracia; son la democracia.

Qué sólo se intervenga donde hay intereses es casual, no seáis mal pensados. Se hace para salvar a las mujeres, para que se vote a los candidatos adecuados. No tienen nada que ver el gas, el petróleo, las bases militares, la situación estratégica. Nuestros soldados solo piensan en disparar para lograr la sonrisa de los pueblos. Abonando con muertos la democracia sonriente.

Los supervillanos son de quita y pon. Un día son luchadores por la libertad, el siguiente son terroristas peligrosos que hay que perseguir y encarcelar, más tarde son buenos y los lanzamos en, por ejemplo, Libia, de donde pasan a, por ejemplo, Siria, pero en, por ejemplo, Malí vuelven a ser malos. Son las puertas giratorias que llevan de la bondad a la maldad o de la maldad a la bondad en la ruleta del maniqueísmo reversible occidental.

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No penséis, ya pensamos nosotros. Decidimos quienes son buenos y quienes son malos, pero también decidimos cuando los malos se vuelven buenos y cuando los buenos se vuelven malos. Lee la prensa, escucha los informativos, son la voz que te dirá lo que debes pensar, a quien tienes que odiar, a quien debes temer y a quien tienes que amar. A pesar de que a veces te líes, no debes dudar.

Nosotros somos la democracia. Somos la libertad de información. Sabemos lo que te conviene. Alquimistas de la maldad y de la bondad. Sonríe aunque te maten, ama al que roba, defiende al que bombardea. Es por tu bien, aunque parezca lo contrario. Solo pensamos en ti, no en nuestros negocios.